Garota,
Faz tempo não falo com você. Será que ainda falamos a mesma língua? Aos 15 anos, o que a gente menos quer é perder tempo falando com adultos, tanto é que até inventamos dialetos que eles não vão entender. Por outro lado, adoramos receber uma carta. Então venho do futuro, da beirada dos nossos 40 anos, para dizer: não somos tão diferentes assim.
Você pode estranhar, mas nós adultos não somos tão bem-resolvidos quanto você pensa. Tem adultos circulando por aí que são literalmente duas crianças dentro de um casaco. Ninguém sabe muito bem o que está fazendo, mas consta a seguinte cláusula no contrato que assinamos ao entrar na Vida Adulta™: finja que você sabe o que está fazendo e não entre em pânico. A maioria dos adultos vive entupida de remédios para conseguir dar conta desta única cláusula.
Então nem vá esperando grandes conselhos. Se você não faz ideia do que te aguarda no seu horizonte, eu também não. A vida continua misteriosa e insondável, as pessoas continuam com os mesmos joguinhos de poder do Ensino Médio, e Chaves continua a passar na televisão. Ah, e prepare-se, porque tudo vai só ficar mais caro.
Mas tenho boas notícias: você vai continuar fazendo na vida adulta aquilo que você mais ama fazer na sua idade. Não é moleza se manter fazendo, mas a gente não escapa de se tornar aquilo que mais repete. Se você quer manter algo na sua vida, você só precisa arrumar um jeito de continuar praticando.
Apesar de você constantemente se sentir menosprezada e tirada de tempo por ser jovem, confie que já existe uma sabedoria aí dentro. A sabedoria de entender o que quer perseguir, ainda que tenha que pegar muitos desvios pelo caminho. Não espere que as portas estejam abertas para você, com tapete vermelho estendido, o som das trombetas. Em vez disso, procure pelas brechas. Pule o muro, atravesse pelo buraco na cerca, entre sem pedir permissão. Você ser marginal não é ruim. Tudo o que você precisa para passar é de uma fresta.
Não julgo o seu estilo revoltada, sempre com camiseta de banda, os olhos escondidos atrás de uma grossa camada de lápis preto, correntes na cintura, ideias anarquistas na cabeça. Pelo contrário, a sua raiva tem toda razão de ser.
A sua constante briga com o sistema, sua revolta contra injustiças, sua vontade de derrubar tudo para colocar algo novo no lugar, nada disso vai sumir. Más notícias: continuo revoltada. Mas, depois de colecionar tantas batalhas perdidas, vamos nos dando conta de que mudar o mundo talvez seja um escopo grande demais; vamos baixar um pouco as expectativas, vamos tentar quem sabe, com muito custo, mudar nós mesmas? Às vezes tudo o que está ao nosso alcance é mudar uma planta de lugar.
Não é que com a idade fiquemos cansadas e conformadas. Sim, ficamos cansadas, exaustas, viciadas em café para aguentar o tranco. Mas conformadas? Jamais. Raiva é o combustível que nos move, então é preciso aprender a usar com mais consciência. Porque de nada adianta tacar fogo em tudo e acabar sendo queimada viva no processo. A raiva não passa, ela apenas se transforma na energia que você injeta para fazer as coisas que você quer.
Sei que nesse momento sua maior preocupação é se definir. Dizer quem você é a partir daquilo que você gosta ou rejeita: as músicas que escuta, os programas que assiste, as celebridades que odeia, as roupas que escolhe, a galera com quem anda, o tipo de gente de quem você faz chacota.
Mas não precisa pirar tanto em se definir, porque outras versões virão. Já trocamos de casca, de estilo, já mudamos nosso cabelo de cor tantas vezes que agora apenas observamos o branco tomar conta. Relaxa, é tudo temporário. Inclusive as pessoas que te cercam.
Nenhuma dessas amizades que você tem hoje vai permanecer. Nem os paquerinhas, nem os rivais, nem os “amigas para sempre” que você escrever em cadernos alheios. Namorados, melhores amigas, números de telefone: você vai ter vários. Ouça o que diz a Cássia Eller: o “pra sempre” sempre acaba.
A ânsia por se definir é sua busca por pertencer. Você quer caber em um grupo, você quer se encaixar, quer encontrar a sua turma, nem que seja a dos revoltados, a dos excluídos, a dos que têm o mesmo inimigo em comum. Pertencer parece o objetivo mais importante da existência, mas também pode ser uma cilada. Andar com as próprias pernas e pensar com a própria cabeça é a melhor coisa que você pode aprender agora. Isso e cozinhar feijão.
Sua vontade de fugir é também a vontade de encontrar algum lugar de pertencimento — sei porque você escutou Linkin Park vezes demais e cantou a plenos pulmões Somewhere I belong. Que, aliás, ouço até hoje. Apesar de eu ter andado um bocado mundo afora, não posso dizer que você encontrou este lugar. Com o tempo entendemos que ele simplesmente não existe: é preciso construí-lo com suas próprias mãos.
Sim, vai doer. Envelhecer é um processo doloroso porque crescer dói e você nunca para de crescer. Envelhecer pode ser ver tudo ficando pior, lidar com tipos de dores que você nem imaginava existir, mas, ao mesmo tempo, você vai acumulando alguns truques. Então não deixe de se divertir no caminho. Você nunca estará velha demais para dançar.
Um exercício: liste as dez coisas que você mais amava fazer aos 15 anos. Quais delas você continua a fazer até hoje?
Me tornei uma dorameira. Fui recrutada pela minha mãe, que me colocou para assistir a novela coreana Se a vida te der tangerinas. No início, estranhei aquela gritaria, aquela choradeira. No terceiro episódio eu já estava derramando lágrimas, super envolvida com os personagens. Caminho sem volta.
Por indicação das Valekers, meu segundo K-drama foi Responde 1988. A série é um mergulho na nostalgia do final dos anos 80 na Coreia do Sul, que me pareceu muito com a experiência brasileira: para começar, 80% das cenas acontecem em torno da comida. Os personagens estão o tempo todo comendo, cozinhando ou pensando em comer.
Para além da comida como função emocional, observei outras semelhanças entre o que mostram os dramas coreanos e a realidade do Brasil:
São muito apegados à família
Mães bravas com mão pesada
Gritaria e chororô
Extremamente dramáticos
Relação entre irmãos baseada em bullying e tapas
“Quer morrer?”
Muita gente endividada
Superstição
Forte influência cultural dos Estados Unidos
Histórico de presidentes presos e tentativas de golpe
Não pode faltar arroz
Na série, vemos Deok-sun, a protagonista, revisitar sua juventude no ano de 1988, como uma garota na periferia de Seul, vivendo todos os dramas dessa idade: as dificuldades nos estudos, a pressão para entrar na faculdade, a relação com os amigos esquisitinhos da sua rua, mas, principalmente, a primeira vez que se apaixona.
A história está cheia de personagens, jovens e adultos, que vão nos envolvendo com suas questões, que são um pouco nossas também. K-dramas conseguem mexer com emoções diferentes do que estamos acostumadas nas narrativas americanas ou mesmo nas novelas brasileiras.
Mas o fio que segura a história são as paixonites e desencontros em torno de Deok-sun: com quem ela vai ficar no final? Quem é o cara que, no futuro, se torna seu marido? Basicamente, é tipo um How I met your mother, só que bom. Os personagens são cativantes a ponto de me deixarem com saudades deles quando a série acabou.
Além disso, é uma bela reflexão sobre a nostalgia:
“O tempo sempre irá fluir. Tudo irá passar. Talvez seja por isso que a juventude é bonita. Ela brilha, ofuscante, apenas por um momento. Mas você jamais poderá voltar a ela.”
Fiquei triste quando acabou. Aceito indicações para o próximo K-drama que irei assistir.
O Elvis também escreveu sobre histórias de amadurecimento, e listou alguns livros e filmes que se enquadram no gênero.
Você já leu Cidades afundam em dias normais? Tem a ver com o tema.
O Rodrigo está escrevendo uma série de textos sobre fazer 40 anos, e neste aqui ele fala sobre as palavras que você repete para você.
Nostalgia já foi considerada uma doença que leva à morte.
Oli Maia, um dos meus escritores favoritos, está com livro novo em pré-venda: Estilhaço é um romance de investigação, não só por ser protagonizado por um detetive particular, mas porque Oli escreve personagens como uma profunda investigação psicológica. Garanta seu exemplar aqui.
Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Um salve para as garotas revoltadas que tiveram o privilégio de ter um ícone como Cássia Eller. Com essa me despeço.
Um beijo e até a próxima,











O dorama “Hi, bye mama” ou “Uma segunda chance” é um dos meus doramas favoritos e fala sobre maternidade, morte e amizades femininas de uma forma linda. Também recomendo “Moving” e “Light Shop” que são mais fantasiosos e muito legais de assistir (o primeiro tem personagens com poderes que precisam se esconder, bem vibe x-men, e o segundo é sobre uma loja que recebe a alma de pessoas a beira da morte que precisam decidir se vão seguir em frente ou vão voltar a vida). Adorei o texto, um dia desses vi um post que brincava com o fato de coisas que se gostava aos 15 anos ainda serem coisas que gostamos agora (e eu tenho várias dessas coisas, os doramas inclusos) e o post terminava com algo como “parece que contrariando as expectativas, eu tinha bom gosto” 😂 não vou dizer que eu tinha bom gosto pq gostava (e gosto) de várias tranqueiras, maaaaas não me arrependo de nenhuma delas
Esse texto foi um afago no coração da Stephi de 15 anos que amava Linkin Park e na Stephanie de 27 que chorou copiosamente ouvindo Somewhere I Belong ao vivo 🥹🫶