Chego cedo demais para minha primeira aula de improviso. A sala indicada no e-mail ainda está trancada, então procuro um lugar para sentar na entrada do centro cultural e volto para o conto de Kafka que eu estava lendo: "Josefina, a cantora, ou O povo dos ratos" (no original em alemão: "Josefine, die Sängerin oder Das Volk der Mäuse"). Foi a última história que ele escreveu.
É sobre uma ratazana, a maior cantora do mundo dos ratos, que tenta negociar com o público que a libere de trabalhar para que ela possa se dedicar ao canto. O tipo de história que me pega demais, tanto pelo absurdo, quanto por estar recheado de reflexões sobre o fazer artístico, sobre a relação entre artista e público, ainda que o autor esteja falando de roedores.
Fico entretida com os guinchos de Josefina, tentando imaginar se Kafka sorria enquanto escrevia essas maluquices, ou se teria usado alguma cantora de sua época como referência para a personagem (quem foi a Lady Gaga da década de 20 passada?), até que percebo um movimento no corredor.
O pessoal da oficina começa a chegar. Entro na sala e me apresento, confiante, talvez confiante demais, porque uma das alunas que chega momentos depois vem falar comigo como se eu fosse a professora. Minha filha, eu não sei nem o que estou fazendo aqui. Quer dizer, estou aqui movida por um delírio passageiro que me levou, duas semanas atrás, a me inscrever nessa aula, achando que seria uma boa para soltar mais meu inglês & conhecer pessoas novas, as duas situações que mais me fazem passar mal de constrangimento na vida. Quem sabe era o que eu precisava para me acostumar a me expor ao ridículo? Uma terapia de choque.
Para começar, o professor, um polonês que ama atuar, mas paga as contas escrevendo códigos, nos reúne no centro do palco para nos explicar os fundamentos do improviso: "não tenha medo de ser mediano". Ali ele já quebra minhas perninhas.
Na última semana, eu tinha começado a escrever um texto justamente contra o discurso do "seja mediano", que passou por mim algumas vezes na correnteza do compartilhamento e que me deixou sinceramente desconfiada. A quem essa ideia está servindo?
Dá para entender o apelo, claro: todo mundo burnoutado, pensando em como vai quitar a prestação de um quilo de café, pode ser facilmente convencido de que a revolução virá de entregar menos, em fazer as coisas bem mais ou menos, com o mínimo de esforço. Será mesmo possível sair do capitalismo via quit quitting?
Esbravejo contra as nuvens, sem ninguém para escutar. Escrevo sobre Miyazaki pitando um cigarrinho atrás do outro, enquanto joga um bocado de trabalho fora, porque a história não está boa, não como ele gostaria (e faço alguma gracinha sobre as animações fofas do Studio Ghibli serem produzidas entre cinzas de cigarro, numa mesa minúscula, por um autor à beira de um ataque de nervos). Observo como essa obsessão e autocobrança acabam tendo muito mais o poder de inspirar do que levar as pessoas, preocupadas, a fazerem uma intervenção para aposentar esse velho teimoso à força. Ser mediano, por outro lado, não mobiliza ninguém a nada.

Lembro até mesmo de Greg, amiguinho branco do Todo Mundo Odeia o Chris, no episódio em que diz "nem se eu me esforçar muito eu vou fracassar", numa demonstração de que algumas pessoas podem mesmo se dar ao luxo de serem medianas, ou mesmo bem ruinzinhas, sem perderem qualquer oportunidade por causa disso (um fenômeno que atende pelo nome de privilégio branco).
Em determinada altura do texto, chego, como não poderia deixar de ser, no nêmesis de nossos tempos:
“As inteligências artificiais são o maior exemplo disso. Tudo o que a inteligência artificial produz é o senso comum, a média de tudo o que ela coletou. A máquina nos serve o mais provável, o previsível.
A IA é mediana por definição.
É curioso, para não dizer triste, que a ideia "seja mediano" comece a reverberar em um momento em que a subjetividade humana esteja sendo achatada em nome da otimização dos lucros de milionários com gosto estético para lá de duvidoso. Isso mesmo, vamos aceitar ser bem medíocres, a rebaixar nosso trabalho ao nível das máquinas. Vai dar certinho.”
Chego armada até os dentes contra a ideia que o professor de improviso apresenta como a mais importante para a aula que me propus a fazer em um momento de insanidade. Adivinha se isso me deixa mais tensa?
Ele explica que a autoexigência de fazer melhor, de exagerar, de chegar numa ideia mais engraçada, acaba levando ao bloqueio. Ser mediano, então, é algo que trabalha a nosso favor se o que estamos buscando é ficar soltinhos. Abandonar a necessidade de sermos ótimos é a chance de calar o nosso crítico interior, de sair um pouco de dentro da nossa cabeça e simplesmente falar a primeira besteira que nos vier à mente.
Ao menos eu estaria entre outras pessoas com o mesmo nível de experiência que eu: zero. Exceto por um grego gigante que tinha feito algumas aulas de improv antes, e uma professora indiana que em determinado momento, para espanto de todos na sala, abriu a porta para pedir a um grupo de adolescentes tagarelando alto no corredor que fizessem silêncio, porque estávamos tendo uma oficina ali. Ser professor te prepara para as situações mais bizarras, vê se ela ia se intimidar com improvisação.
Descubro que muitos estão ali para deixar de ser tão overthinkers, ou para quebrar um pouco a timidez. Na minha vez, conto que minha motivação para estar ali é praticar meu inglês, para me sentir mais segura falando. O professor aproveita para dizer que não dominar o idioma não é um problema, pelo contrário; em cena, muitas vezes, quando as pessoas ficam ansiosas, começam a falar demais e acabam se atrapalhando. Falar pouco (ou mesmo ficar em silêncio) pode funcionar bem melhor.
"A quietude é a música que mais apreciamos."
— Franz Kafka, no conto "Josefina, a cantora, ou O povo dos Ratos", tradução de Josely Vianna Baptista
A proposta de se permitir ser mediana é libertadora no começo, em que tentamos descobrir como o jogo funciona. Mas não torna nada mais fácil. Já é um esforço descomunal fazer cenas de improviso sem experiência, numa língua que não é a minha. No meio da aula, já estou suando. Não sei se pela atividade física ou se por nervoso.
Os exercícios parecem fáceis, mas são desafiadores. Espelhamos o movimento dos colegas, praticamos diálogos em cenários propostos na hora, recebemos a tarefa de organizar uma festa imaginária.
Me vejo no puro lugar do desconforto, encenando papéis e situações que despertam todos os meus gatilhos, como interpretar um robô (o que quase me faz travar, mas uso para fazer gracinha com estar carregando os dados) ou me ver numa festa cheia de gente rica. Não paro de rir. Não sei se por estar divertido ou por puro nervoso.
O grego, que parece estar bem à vontade e se desenrola bem em todas as cenas, então propõe que na minha vez eu interprete uma rainha, quase como se tivesse farejado o que me joga no desconforto. Canalha! Sinto o bloqueio vir, mas faço o melhor que posso para responder à minha parceira de cena, uma serva que tenta me matar envenenada.
O professor então me interrompe, repetindo a dica que já havia dado a outros colegas: "pausa um pouco antes de responder. Você está acelerando demais." O que me pega completamente desprevenida, porque dentro da minha cabeça estou em desespero por me sentir muito lenta.
É quase como naquela cena do filme Whiplash, em que subitamente descubro que sou uma rusher (ora ora, quem diria, logo a pessoa que chega cedo nos rolês!), com a diferença que o professor não precisa me estapear ou arremessar algo contra mim para eu conseguir entender.
Um dos mais valiosos aprendizados da noite é como a ansiedade nos faz temer o silêncio. Por que essa sangria desatada para preencher todos os espaços vazios?
Quando entendemos que o silêncio pode ser usado como uma ferramenta, conseguimos criar um espaço para pensar e falar com mais calma e segurança. Ou mesmo usar o silêncio para criar humor. Em várias cenas, é justamente nos longos momentos de alguém calado, esperando o momento de responder, que explodem as gargalhadas do público.
Saio da aula satisfeita por ter sobrevivido, mas aborrecida porque teria que reescrever o texto que tinha agendado para a newsletter. Poxa, eu tinha ido atrás de uma aula de improviso para me divertir, não para sacudir todas as minhas crenças. Maldito povo do teatro.
Pelo menos, posso dizer que não consegui ser mediana, como recomendou o professor. Pelo contrário: pude ser péssima! Me atrapalhei, travei, dei respostas sem graça, quebrei algumas regras, fui ridícula. Isso sim, muito mais do que a covardia de se acomodar em um lugar mediano, foi libertador.
"Muitos acreditam que Josefina fica tão aflita assim por estar se sentindo velha, porque sua voz apresenta falhas e lhe parece urgente travar o último combate para ser definitivamente reconhecida. Não acredito nisso. Josefina não seria quem é se isso fosse verdade. Para ela não há nem velhice nem enfraquecimento da voz. Quando quer alguma coisa não é por motivos superficiais, mas por lógica íntima. Estende a mão para a coroa mais alta; se dependesse dela, mais alto ainda a exibiria."
— Franz Kafka, no conto "Josefina, a cantora, ou O povo dos Ratos", tradução de Josely Vianna Baptista
Pirando no improviso
Aqui em casa temos uma nova obsessão. Ok, para ser mais exata, o Marcos (para quem não sabe, meu marido, e a fonte de muitas referências legais que indico por aqui) tem uma nova obsessão.
Ele descobriu o canal de um carinha que faz lives de música andando pelas ruas de Nova York com todo um aparato de equipamentos (que pesa mais de 20 kg!) acoplado ao seu corpo, conhecido como Ari At Home. Ele aborda desconhecidos na rua e cria uma batida ali na hora para a pessoa mandar um flow, no improviso, tudo ao vivo.
O fascinante nesses vídeos é ver a mágica que acontece quando se cria sem planejamento, aceitando o acaso. E tem de tudo. Aparece gente que canta muito bem, aparece gente que não canta nada, mas se diverte, aparece todo tipo de maluco querendo um tempo no microfone.
Em um dos episódios mais icônicos, o Ari começa a ser seguido por um cara que tá doido para cantar, mas está tão alterado que acaba travando em um único verso: My mind is playing tricks on me, my mind is playing tricks on me... Receio ficar com essa música na cabeça quando eu travar no meio de um improviso.
Deixo aqui um dos primeiros vídeos do Ari que assisti, que tem uma boa miscelânea de figuras interessantes e de gente mandando muito no freestyle:
O perigo de se achatar
Estamos vivendo em tempos de achatamento cultural, como disse o Ted Gioia nesta edição da sua newsletter. Tudo o que consumimos está muito parecido, uniforme, pasteurizado. Nivela-se pela média — porque assim o produto ou conteúdo tem chances de atingir mais gente. Massificar.
"Tudo o que fazemos, desde encontros via aplicativos até pedir uma refeição ou nos comunicar com amigos no Facebook, deve ser tratado de maneira uniforme e padronizada. Isso porque — sim, você adivinhou — é mais lucrativo dessa forma. É assim que as pessoas são achatadas."
— Ted Gioia, trecho do texto "The World Was Flat. Now It's Flattened"
Também gostei bastante desse texto da Mariana Coutinho sobre o perigo do discurso antiacadêmico, que tem ganhado bastante força na internet nos últimos tempos; há um certo desprezo pelos estudos, porque esperto mesmo é quem está buscando uma forma de fazer dinheiro com o mínimo de esforço. Ela escreve:
"Não é à toa que nos querem generalistas e fora da faculdade. Além de gastarmos os tubos com cursos online vazios de pensamento crítico para nos adequar a mais uma 'tendência do mercado' a cada nova estação, permanecemos analfabetos de mundo, caindo facilmente em discursos falaciosos, nos isolando e desaprendendo a aprender."
— Mariana Coutinho, em “A quem interessa o discurso antiacadêmico?”
Estava lendo uma entrevista antiga da Elvira Vigna e eis que me deparo com o seguinte trecho:
"Eu compro contemporâneos, desconhecidos. (...) E encontro pessoas muito boas. E é ruim dizer isso, porque elas são muito pouco conhecidas fora de São Paulo. Nem vou falar mais do Rio, porque o Rio morreu, agora é só São Paulo. Tem um escritor, por exemplo, que eu não conheço pessoalmente, que é o Fernando Monteiro. Acho que ele é pernambucano, faz cinema também. Esse cara tem uma experiência de narração incrivelmente boa. É um cara de quem não vejo comentários. Por outro lado, àqueles que estão a toda hora na mídia, não gosto. Não vou citar nomes porque seria muito deselegante da minha parte, mas eu leio e fico espantada. É um dos momentos em que me sinto pouco adaptada ao campo literário, no sentido de Bordieu. Muito perplexa. E tem gente que passa uma dificuldade, não sei quanto tempo para conseguir editar um livro, gente boa, gente nova, desconhecida."
Eu também fico espantada. E fico espantada também de descobrir que mesmo Elvira Vigna, que era fodona, sentia-se deslocada nesse meio. É realmente difícil entender. No meu caso, provavelmente, é porque me falta bagagem para captar a genialidade dos livros que passam a ser incensados na mídia. Tenho muito a aprender, é isso.
"A informação não é experiência. E mais, a informação não deixa lugar para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma antiexperiência. Por isso a ênfase contemporânea na informação, em estar informados, e toda a retórica destinada a constituir-nos como sujeitos informantes e informados; a informação não faz outra coisa que cancelar nossas possibilidades de experiência. O sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela informação e pelo saber (mas saber não no sentido de “sabedoria”, mas no sentido de “estar informado”), o que consegue é que nada lhe aconteça. (…) Uma sociedade constituída sob o signo da informação é uma sociedade na qual a experiência é impossível."
— Jorge Larrosa Bondía, "Notas sobre a experiência e o saber da experiência". (tradução de João Wanderley Geraldi).
Outro dia compartilhei este trecho de Larrosa Bondía no chat do Substack (um cantinho para falar só com quem lê minha newsletter e assim fugir do barulho do algoritmo) e rendeu uma conversa interessante, com boas trocas de referências. Você pode ver aqui.
Esta é uma newsletter sempre escrita de trás para frente, de forma que estas palavras que você lê agora são, na verdade, as primeiras que escrevi.
Recorro a este truque para tirar das primeiras palavras o peso de determinarem o rumo da edição. Assim também posso percorrer um longo caminho antes de chegar na história que de fato quero contar. Levo horas para entender para onde quero ir. Levo o texto comigo para debaixo do chuveiro, ou para debaixo do travesseiro, e só as deixo ir embora quando fico satisfeita. Newsletter não é matéria que tenho interesse em resolver depressa.
Não sei ainda o que escrevi aí em cima, embora possa arriscar que tenha sido texto para caralho. Se você chegou até aqui, só posso te agradecer pela paciência e te parabenizar pela concentração.
Você pode me dizer o que achou com palavras, deixando um comentário, ou gestos, apertando o botão do coração ou espalhando este texto por aí. E, claro, você pode jogar uns trocados no meu chapéu para que eu possa me manter escrevendo, o que provavelmente vou continuar fazendo de qualquer maneira, porque sou teimosa.
Um beijo e fique na paz,
Aline Valek.









Quando você citou Bondía e a noção da informação como "antiexperiencia", uma série de ideias desconexas de repente vestiram uniforme e formaram uma fila.
Me deu saudade de uma época - e aqui me dou o "mérito" de ter adolescido na transição do mundo pro digital - em que não tinhamos como saber um fato tão rápido, fosse ele sobre um filme, um acontecimento ou até mesmo algo trivial como de quem diabos era o casarão abandonado da esquina. Voce tecia teorias, não tinha vergonha de compartilhamos e os loucos da sua galera debatiam quem tinha a tese menos louca sobre as coisas.
Você pensava. Você TINHA que pensar. E mesmo quando a verdade vinha dando um sopapo na sua imaginação, havia tempo pra você imaginar. Hoje nao tem.
Claro, saudade em pedaços, né? Um mundo bem informado tem muito mais benesses do que contras.
Ainda assim, dá vontade de estar em um novo espaço-tempo onde nao se precisa ter vergonha de imaginar. Onde não é um crime teorizar absurdos - e, talvez por isso, menos vergonhoso admitir que você errou feio. Que não é tão bom assim nas coisas.
Será que dá pra ter auto controle pra conseguei isso só num pedacinho da vida como a literatura?
Fiquei com muitos pensamentos! Eu faço coro ao discurso do mediano porque eu fico de saco cheio das pessoas cheias de dedos para fazer algo além do trabalho,com medo de não ser incrivel. Hobby deveria ser liberado ser ruim, e eu mantenho esse ponto de vista. Porém, quando vi pessoas contestando isso justamente da forma que voce falou, aprofundando no fazer artístico e nas dores do processo, comecei a pensar que isso tudo acontece por causa dessa falta de contexto da Internet. As pessoas pegam um mantra (seja médio!), ficam repetindo à exaustão sem dizer mais nada, e aquilo perde o significado - isso é sobre não se esforçar, ou sobre não ter medo de começar coisas novas? Isso é pra reforçar essa mediocridade do que a gente consome e reproduz, ou pra tirar a pressão esmagadora da performance de todos os aspectos da nossa vida? É o privilégio manifesto ou um pedido de socorro?
E acho que pega mais fundo quando a gente tem o fazer artístico enquanto ofício, porque embora sim, seja bom inicialmente produzir sem medo pra editar depois, existe uma seriedade ali que esse discurso pró ser mediano simplesmente não comporta. Já vi esse vai e volta no notes, pessoas falando 'escreva sem medo!!!! escreva mal!!!' e outras respondendo 'calma lá, tenha autocrítica'. O que mais me pega aqui não é uma posição específica sobre isso, mas essa coisa da repetição do discurso em câmara de eco, slogans repetidos à exaustão, significados completamente esvaziados.
No mais, gostei muito de como você amarrou tudo no texto. Espero que você volte para a aula de improv!