Levei um susto quando comecei a ver um surto patriótico tomar conta das redes sociais de conhecidos e amigos na última semana. Emoji de bandeira do Brasil para todo lado. Pronto, acordei em um episódio de Twilight Zone no qual os esquerdistas que conheço começam a dar uma guinada à direita.
A bandeira do Brasil não deveria pertencer a apenas um grupo político, é verdade, mas desde junho de 2013 olho com desconfiança para quem se embrulha em verde, amarelo e orgulho nacional para protestar. Não consigo evitar. Chama trauma.
Para meu alívio, não era o caso dessas pessoas que considero tão sensatas estarem a um passo de cantar hino para pneu, mas sim de uma manifestação contra o imperialismo norte-americano. Ufa!
Nada como um ianque1 para acender a chama do patriotismo brasileiro e da vontade de se reapropriar dos símbolos nacionais sequestrados pela extrema-direita. Uma das últimas vezes que isso aconteceu foi quando a Madonna usou a camisa amarela da seleção em um show em Copacabana. Agora, a loira americana responsável por colocar o verde e amarelo em alta novamente foi o Trump.
Tudo porque o topete que habita a Casa Branca ameaçou taxar o Brasil se a justiça brasileira condenasse Bolsonaro. Em resposta, Lula colocou as mãos na cintura e disse: "Oxe, meta-se com seus problemas!", deixando claro que Brasil não é bagunça, que ele não deita pra americano e que se taxarem a exportação brasileira, ele taxa de volta. Vai mexer com escorpiano, vai.
Aliás, a política da reciprocidade deveria ir além das relações diplomáticas e ser aplicada também nas nossas relações. Alguém tratou você com desdém? Desdenhe de volta. Adote você também a política brasileira da reciprocidade e pare de tentar agradar quem é desagradável com você.
É louvável ver o Brasil se impondo como nação e ver os brasileiros reconhecendo o valor da nossa cultura. Ainda que exista todo um movimento cultural e artístico para resgatar os símbolos nacionais de uma direita cafona e alucinada, não consigo embarcar nessa onda patriótica.
Tenho todos os pés atrás com os símbolos nacionais: bandeira, hino, desfile de 7 de setembro, camisa da seleção. O único verde e amarelo que faço questão de usar é o coentro e o milho. Patriotismo não me desce bem.
Em primeiro lugar, porque nunca coube na minha cabeça um Estado pedir uma devoção quase religiosa oferecendo tão pouco em troca. Quem já esteve/está em situação de fudido talvez entenda o que quero dizer. Em segundo lugar, porque prefiro passar longe de qualquer coisa que possa ser associada a discurso de militar. Desafiar meu peito, meu delicado peitinho, à própria morte? Me obrigue.
Talvez minha antipatia por esses símbolos venha sobretudo dessa tentativa que eles representam de unificar o Brasil. Como se a identidade brasileira pudesse caber debaixo de uma única bandeira, quando a principal característica do nosso povo é justamente a diversidade.
"No século 17, John Milton escreveu 'Areopagítica', clássica defesa da liberdade de expressão e de imprensa. Nesse texto, o autor sustentou que o dissenso é o pai de todo o progresso: todas as discordâncias, longe de enfraquecerem a nação, são aquilo que a faz progredir, por meio do debate racional e da crítica. O ditador italiano Benito Mussolini, no século 20, disse o inverso: toda diferença enfraquece a nação e, por isso, é uma erva daninha que deve ser removida."
— Prof. Daniel Gomes de Carvalho, em entrevista para o Nexo.
Neste texto, o historiador também diz que toda ideia de nação é construída mais sobre seus esquecimentos do que sobre suas memórias. Porque para amar e defender uma pátria, ela precisa ter algo de ideal, de nobre, o que só é possível quando nos esquecemos das opressões e dos sucessivos massacres que a constituíram.
Além disso, o patriotismo costuma estar a dois passinhos de distância de se tornar repulsa ao que é estrangeiro. É o tipo de sentimento que serve à lógica da guerra. O outro vira rival. Amor à pátria pode virar facilmente "meu país é melhor que o seu". Nacionalismo nunca deu em coisa boa e a Alemanha tem uma ou duas coisinhas para dizer a esse respeito. Aqui já me disseram que se alguém levanta a bandeira alemã fora do contexto esportivo, pode correr que é maluco.
Não faço questão alguma de resgatar símbolos nacionais ou de ressignificar o que é ser um brasileiro patriota. Melhor do que patriotismo é autoestima. Por isso, acho mais interessante observar como a autoestima brasileira tem aumentado, enquanto o "complexo de vira-lata", como Nelson Rodrigues descreveu o sentimento de inferioridade do brasileiro diante de outros países, vai saindo de moda.
Hoje temos mais consciência do nosso valor, de que somos parte de uma cultura grande e respeitada. Para um povo que resistiu e resiste diariamente a tantas bordoadas, poder ter orgulho de quem é e de onde veio significa muita coisa.
Nunca me senti tão brasileira quanto morando fora do Brasil, ainda que eu esteja longe do que se espera de uma brasileira. Toda vez que alguém diz que o brasileiro é um povo aberto, caloroso, fácil de fazer amizade, gosta de festa, sabe se divertir, tenho certeza que não estão falando de mim. Apesar disso, é impressionante observar como, toda vez que revelo minha nacionalidade, ganho automaticamente um bônus +5 de carisma.
Me sinto um pouco celebridade diante de um fã, pois é muito comum que a outra pessoa, não importa de que parte do mundo ela venha, tenha algo de bom a dizer sobre o Brasil, com os olhos brilhando. Falam sobre artistas, sobre música, sobre clima bom e paisagens bonitas, comida boa, alguns arriscam até a falar umas palavras em português. Para meu desespero, quantas vezes não pude retribuir, dizendo o mesmo sobre, por exemplo, a Bulgária, ou a Geórgia, ou mesmo sobre Taiwan? As pessoas que encontro ficam orgulhosas de mostrar que conhecem o meu país. Não somos tão ignorados no rolê quanto pensamos. O Brasil é hype.
É fruto do acaso o lugar onde nascemos. Por isso me sinto mais sortuda do que orgulhosa de ser brasileira. É uma tremenda sorte carregar comigo uma herança cultural tão rica que me faz ser lida de cara como uma pessoa criativa e gente boa, graças ao trabalho de imagem que outros milhões de brasileiros fizeram antes de mim, ainda que eu deixe muito a desejar em pelo metade desses quesitos.
Talvez dê para sentir orgulho sim: a identidade brasileira é uma construção e, apesar das dificuldades e contradições, estamos fazendo um bom trabalho. O Brasil é uma invenção. Temos a responsabilidade de imaginar e de criar, cada um a seu modo, o retrato do que significa ser brasileiro, para muito além dos símbolos que nos são dados.
Não precisamos copiar os Estados Unidos, muito menos nesse patriotismo ensandecido de quem se acha muito superior aos outros. Temos brilho próprio, não precisamos nos curvar diante do imperialismo de ninguém! Mas se eles quiserem nos dar mais um Oscar, poxa, aceitamos sim, de muito bom grado.
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Já escrevi que tenho minhas dúvidas se as contradições desse país, bonito e brutal na mesma medida, coubessem debaixo de um mesmo símbolo.
Está neste texto sobre Amor, a palavra que faltou na nossa bandeira.
Ainda sobre brasilidades: no episódio Teoria Belchior, levo você por uma jornada sonora para analisar como as letras de Belchior narram a saga de ser latinoamericano. Bobagens Imperdíveis está disponível em todas as plataformas!
Encontro em Berlim
Eis que vou participar de mais um evento para falar de newsletter, dessa vez em Berlim!
Será um picnic literário com Lalai Persson, autora da news Next Day Berlin e Espiral, e Isabelle Bedê, da news Späti Stories, com mediação da india thume, da news Curator of Oddities. Vamos conversar sobre newsletters como espaço para criar literatura e conexões.
Será no dia 29 de julho, às 18h30, no Mauerpark. De graça, só colar! Localização exata e mais informações aqui.
Fica o convite para quem está em Berlim ou arredores. Traga sua bebida, snacks, toalhinha pra sentar na grama e venha conversar com a gente!
Queer e fantástico
Homem com H tem tudo para ser o próximo filme brasileiro ganhando destaque nas premiações mundo afora. Pelo menos é a minha aposta. Que nunca acerto nenhum ganhador do Oscar.
Dialoga com questões muito pertinentes da atualidade: masculinidade, o terror de viver sob uma epidemia, autoritarismo, censura, homofobia. Conta a história real de um artista brasileiro que marcou nossa história e continua na ativa, aos 83 anos.
É um filme ousado para falar das relações entre homens, de forma bem ampla: relação entre pai e filho, entre amigos, entre amantes, entre sócios. Tudo entre cenas de sexo muito bem feitas, referências históricas bem colocadas e uma trilha sonora memorável pois: Ney Matogrosso.
O que mais me impressionou foi a atuação brilhante do Jesuíta Barbosa. Quer dizer, não foi bem um trabalho de atuação, estava mais para um caso de possessão. Tive dificuldades de distinguir o Jesuíta no meio do Ney que ele criou com o corpo, com a voz, com o olhar, com os gestos.
Para além disso, o filme mexeu comigo pois vejo Ney Matogrosso como a própria personificação do fantástico. "O Vira" foi a primeira música que me lembro de gostar na vida.
Eu mal sabia falar e enchia o saco dos meus pais para colocar de novo a música que me fazia saltitar pela casa e criava na minha cabecinha imagens vívidas que começavam com um gato preto e iam parar em uma floresta habitada por luzes misteriosas, fadas, sacis e gente virando bicho.
O próprio Ney, com aquele corpo esguio, plumas e a cara pintada, já me parecia um ser encantado da floresta. A capa do Secos & Molhados, com cabeças servidas em bandejas em uma mesa de café da manhã, já provocavam a minha imaginação. Como aquilo era possível?
Não se passa ileso por essas referências. Esse sangue latino correndo nas veias carrega também nossa vocação para o fantástico. A mesma que Ney manifesta ao subir num palco, mostrando que podemos inventar e viver a fantasia de ser quem realmente somos.
Puro suco de Brasil
Fazia tempo não dava tanta risada com uma série quanto estou dando com Pablo & Luisão, no nível de escorrer lagriminha no canto do olho.
A série, criada por Paulo Vieira, é o Todo mundo odeia o Chris que se passa no Tocantins. O narrador conta histórias absurdas, mas baseadas em fatos reais, sobre como o pai e seu melhor amigo metem a família nas maiores roubadas em nome de escolhas questionáveis para economizar 50 reais. Julius, pai do Chris, tem muito a aprender com Luisão.
Ou melhor, para ficarmos em uma referência mais brasileira, a série é como uma releitura dos contos de Pedro Malasartes, onde os espertos, em vez de criarem seus esquemas para prejudicar os outros, prejudicam apenas a si mesmos, contraindo dívidas, caindo em papo de golpistas e levando choque com as próprias gambiarras.
“Parece até que escolhem o perrengue porque é mais divertido", diz o narrador.
O que não tem como dar errado é a reunião de grandes nomes no elenco: além de Dira Paes, Ailton Graça e Otávio Müller nos papéis principais, o elenco convidado de cada episódio está cheio de tesouros nacionais. Chega dei um gritinho quando apareceu a Grace Passô!
Essa série só tem um problema: me dá uma puta vontade de comer coxinha.
Com a palavra, o leitor
Um leitor (oi, Marcelo!) sugeriu que eu falasse mais dos meus livros por aqui, pois gostaria de saber por quais deles começar.
Tem um minutinho para a palavra da ficção científica brasileira, senhor?
Sempre gosto muito de ouvir as histórias que escrevo da perspectiva dos leitores. E nesse vídeo a Sabrina Roman conta o que a fisgou no meu romance oceânico As águas-vivas não sabem de si, mesmo sendo uma pessoa que tem pânico do mar:
Você apoia demais o meu trabalho quando compra meus livros, quando deixa suas ★★★★★ e uma avaliação sincera na Amazon (especialmente quando fala do livro, em vez de dar nota baixa por causa da entrega, poxa, esse tipo de review me quebra), quando indica o livro para amigos ou escreve uma resenha nas suas redes ou na sua news.
Você também pode fazer parte do meu clube de apoiadores e dar uma força para as produções de uma artista brasileira viva. Saiba aqui como apoiar o Valekverso e quais extras você desbloqueia.
Volto a qualquer momento com novas invenções. Enquanto isso você pode me contar seus pensamentos nos comentários ou respondendo diretamente a este e-mail. Escreva sempre que quiser!
O que faz você se orgulhar do Brasil?
Um beijo,
Aline Valek.
A palavra ianque ou yankee, apesar de muita gente acreditar que é indígena, na verdade, vem do apelido Janke, que é a forma de chamar alguém de "Joãozinho" em holandês. Não se sabe muito bem quem ou em qual contexto o apelido começou a ser usado, mas podemos ter certeza que se originou do bullying e da xenofobia. Primeiro, para se referir aos colonos que viviam nos estados da Nova Inglaterra, aqueles joãozinhos. Depois, o termo começou a ser usado pejorativamente pelos britânicos para se referir aos colonos americanos de uma forma geral. Hoje, já é o termo mundialmente usado para praticar bullying contra quem nasceu na terra do Tio Sam. Mas será que não estamos apenas copiando uma prática colonizadora dos ingleses ao usar esta palavra? Fica a questão!










Concordo demais! Especialmente sobre se sentir mais brasileira depois que saí do Brasil. Acho que é uma forma que a gente encontra de resgatar quem somos, diante do novo e desconhecido.
Aqui na Suécia ainda me incomodo um pouco com o patriotismo do povo. Moro num bairro muito sueco, e ver bandeiras do país espalhadas pelas casas é muito comum. Um dos vizinhos tem um mastro enorme, tipo de castelo mesmo, e levanta a bandeira em dias especiais, como o "dia nacional" (já que eles não tem um dia de independência). Pra que um mastro no jardim, migo?
Ainda assim, são as mesmas pessoas que nos tratam com cordialidade, mesmo não se comunicando na língua deles.
Porém, culturalmente, é comum colocar o país como "perfeito", e seguir as regras sem contestá-las (por exemplo, ja conheci mais de uma pessoa que recebeu a cartinha de deportação de filho com menos de 3 meses porque aonda estava sem visto, sendo que as pessoas estavam no aguardo do documento). Enfim, daria um papo longo sobre isso tudo hahah
Aline, há muito de bom senso em tudo que você diz. Chega de patriotada de toda natureza. Não precisamos disso. Nossa pátria é nosso povo (gente humilde, lembra?) e nossa maravilhosa língua.