Vi Hermeto Pascoal subir no palco poucos meses antes de sua passagem para outro plano. Assim que soube pela Lalai Persson que ele tocaria em Berlim, comprei meu ingresso. Primeira vez que fui à capital alemã e me senti mesmo foi no Brasil. Matei saudades de caipirinha, de comer pastel, de ouvir português.
Quando chegou a vez do bruxo tocar, testemunhei um verdadeiro show de mágica. Hermeto estava bem velhinho, mas aposto que já parecia um ancião desde muito novo. Ele passou todo o tempo sentado, com um assistente ao lado. Mas a energia que emanava com sua música era a mesma de um menino.
Tocou tamanco, chaleira, berrante, brincou de fazer sons com a boca e colocou a platéia para brincar junto. Ele era capaz de transformar qualquer coisa em instrumento, caverna, água, a própria barriga. Vai ver porque entendeu que pessoas são instrumentos, que fomos feitas para sermos tocadas.
Tem uma entrevista muito boa em que ele compara o mundo a uma roda. Ela gira. Não precisa olhar para trás. Aquilo que você teria que fazer um esforço para ver, você vai ver na sua frente.
“Lindo é essa coisa redonda desse mundo que a gente vive e que gira e que gira e que gira.”
O tempo não é linear. Ou algo que pode ser canalizado em uma linha reta, sempre para frente e para cima. As horas passando são literalmente o efeito do giro de uma bola no espaço. As folhas das árvores caindo, curvando-se ao outono que chega, são um lembrete de que nada pode resistir à força do tempo.
Tenho brigado com o tempo, em suas mais diversas formas. Inclusive com os verbos, principalmente com eles. Preciso fazer um esforço para conjugá-los no passado. É muito mais natural escrever com os verbos no presente, eles deslizam, dão ideia de algo que continua, enquanto no pretérito eles falam de um momento que acabou.
Dureza mesmo é conjugar no futuro: o que vai acontecer? O que será de nós? Quanto tempo ainda temos? O futuro é o campo do não-saber, por isso a angústia. E então seguramos o volante com mais firmeza, como se estivéssemos atravessando um trecho de neblina em que não conseguimos ver nada adiante, por isso temos que cuidar de controlar todo e qualquer movimento.
Mas que controle nós temos? Não adianta colocar mais força, estamos indo de qualquer maneira. Só segue o fluxo.
“Nada fica para trás. Porque as coisas giram, rodam, se encontram”, como já disse Hermeto.
Podemos então praticar olhar para frente, acostumar-se a entrar na neblina, conjugar alguns verbos no futuro para ver onde vão dar.
Meu objetivo é ficar velha. Não preciso chegar lá rica, reconhecida ou mesmo lembrada por quem quer que seja; se estiver com as juntas funcionando, já me sentirei realizada. Se chegar a ter uma cabeleira branca de responsa, estarei mais feliz ainda.
Blogando à moda antiga
Gostei tanto do filme “Dormir de olhos abertos” que publiquei lá no blog um texto sobre como essa história de personagens chineses vivendo em Recife conseguiu traduzir a experiência de viver em um lugar onde você não domina o idioma.
Puxei uma roda de oração para o santo padroeiro da internet para ver se ele nos concede a graça da multiplicação do alcance e do engajamento, nos protege dos caprichos do algoritmo e nos livra de todo shadowban, amém.
Traduzi na íntegra o ensaio do George Orwell “Por que escrevo”, que achei bem inspirador especialmente por perceber que até grandes escritores achavam que escrever um livro “é uma luta horripilante e exaustiva, como um tipo de longa e dolorosa doença”.
Giro de indicações

Em outubro começa uma nova turma do curso Vida do Livro, ministrado pelo Daniel Lameira, editor da Seiva, e indicadíssimo para quem deseja trabalhar no mercado editorial. Esta edição conta com uma aula inédita minha! Inscrições e mais infos aqui. Você pode usar meu cupom ALINEVALEK para se inscrever com 10% de desconto.
Tem livro novo da minha amiga Jana Viscardi na área: está em pré-venda Como nos comunicamos importa, livro que nos convida a questionar nossa forma de ler o mundo e as informações que chegam até nós, sobretudo por meio do jornalismo. Curiosa!
Meu romance As águas-vivas não sabem de si continua com um desconto absurdo no Kindle. Tá saindo por menos de 9 reais. Sabe-se lá até quando, então aproveite!
Também está em pré-venda a versão física de Lágrimas de carne, de Fernanda Castro, uma história fantástica no agreste sobre uma carpideira e seus filhos meio humanos meio pássaros, numa edição caprichada da Arte & Letra.
“Você é dono do seu próprio aprendizado”, webcomic do professor e ilustrador Nick Sousanis.
Como a lógica do curto e contínuo pode ser usada para criar um hábito benéfico ou para uma atividade que consideramos importante, em vez de apenas derreter nosso cérebro. Texto do Edu Fernandes, no Texto sobre Tela.
A Re Corrêa ensina aqui uma trapaça muito útil para processos longos de escrita que vale a pena experimentar.

Com a palavra, o leitor
Fiquei emocionada com essa resenha de Cidades afundam em dias normais que o Jotapê escreveu. Quando a gente escreve um livro não faz ideia de até onde aquelas palavras podem chegar. É muito legal ver como o livro toca de forma muito única cada pessoa que o lê. Compartilho aqui um pedacinho:
“Na edição de Creusa, Aline assinou a dedicatória com a frase ‘as mãos que estampamos nas cavernas’. A mensagem é clara. Cidades Afundam é um livro arqueológico, uma meditação sui generis sobre a fecundidade que jaz nas ruínas e nos rastros que deixamos. Nossa própria memória é um museu de coleções incompletas cujas lacunas são constantemente preenchidas por novos materiais na medida em que os sentidos se transformam.”
— Jotapê Russo, em “Sentido ao predicado”
Vale sair dançando do e-mail de hoje com a música do Hermeto Pascoal que inspirou a música de abertura de um dos melhores desenhos animados dos anos 90, o desenho dos X-Men. Plágio ou coincidências do Universo?
Um beijo, bora cuidar.












Que a gente possa envelhecer com saúde e sabedoria, tal qual o nosso eterno Hermeto. Texto lindo, Aline, para não perder o costume. Também adorei sua leitura de "Dormir de olhos abertos" lá no blog. Preciso achar um jeito de assisti-lo por aqui :)
Aline, já me disseram (muitas vezes, sem eu perguntar) que morrerei bem velhinho... Estou me preparando chegar bem longe. Espero te encontrar pelo caminho, algum dia. Se eu chegar até a idade do Campeão, o Hermeto, já estou satisfeito. :)