O futuro queer, sensual e transgressor de Samuel Delany
☞ 12 anos de newsletter, acredita?
“O lugar no qual vou me encaixar não vai existir até que eu o crie.”
— James Baldwin
O ano era 1942. Nascia no Harlem, bairro nova-iorquino conhecido como o berço do jazz, o pequeno Samuel Ray Delany.
Filho de uma família negra bem estabelecida, sua mãe Margaret era uma funcionária do sistema de bibliotecas públicas de NY e seu pai, também Samuel, era dono de uma funerária.
Samuel (o Júnior) entraria para a história como um Grande Mestre. Mas ele não foi o primeiro Delany famoso de sua família.
Seu avô, nascido na escravidão, tornou-se o primeiro bispo negro na Igreja Episcopal dos Estados Unidos. Suas tias Sadie e Bessie, conhecidas como as Irmãs Delany, viveram mais de 100 anos e foram pioneiras na luta por direitos civis; tiveram até mesmo um livro bestseller e um filme baseados em sua história. Sua tia Clarissa foi uma reconhecida poeta. Seu tio Hubert foi jurista e político, além de um dos primeiros afro-americanos a se tornar juiz em Nova York.

Samuel Delany teve acesso a uma educação de base sólida. Estudou numa escola particular, majoritariamente branca. Não era isso, no entanto, que o fazia se sentir deslocado dos demais. Samuel não considerava que era por uma questão racial; talvez por ser um menino negro de pele mais clara, os outros não faziam um grande caso disso. Pelo menos, ele não via assim. Ele se sentia diferente dos demais porque desde muito jovem compreendeu que era gay.
Ele conta que as primeiras histórias que ele escreveu, ainda moleque, eram fantasias eróticas inspiradas em Conan e Tarzan. Sim, como muitos jovens fanfiqueiros de hoje em dia, ele colocou no papel suas fantasias masturbatórias com seus personagens favoritos.
Além disso, ele enchia as histórias das gírias mais vulgares que ouvia em seu bairro, expressões proibidas em sua casa, como a palavra começada em n. Samuel também entendia que havia um tabu em torno da homossexualidade, e usou a escrita para despejar tudo o que via como proibido (logo, excitante).
De nada adiantou ele ter escondido essas páginas no fundo de um baú; eventualmente, a mãe as encontrou e levou diretamente para o terapeuta que o atendia. Samuel fazia terapia por conta da sua dislexia. Então era espantoso ver toda aquela produção textual. Tanto que o psicólogo que dirigia o centro clínico que Delany frequentava usou o material como exemplo em uma tese que publicou, sobre o efeito do racismo em crianças. Com um detalhe: ele cortou todos os trechos explicitamente sexuais e qualquer menção à homossexualidade, justamente a questão que mais afligia Samuel.
De qualquer forma, aquela era a primeira vez que Samuel tinha suas histórias publicadas. Ele e a mãe ficaram orgulhosos (o pai parece nunca ter descoberto). Parece que isso o incentivou. Anos mais tarde, aquele tipo de escrita febril e pornográfica era justamente o que ele continuaria a escrever e publicar.
Delany foi precoce em muitas coisas. Uma delas foi o casamento: tinha apenas 19 anos quando se casou com Marilyn Hacker, uma jovem poeta com quem ele começou a namorar ainda no colégio. Anos mais tarde, Marilyn se identificaria como lésbica; também não era um segredo para ela que Samuel sentia atração por homens. Os dois andavam com o mesmo grupinho queer no colégio e na faculdade. Tiveram juntos, além de um casamento aberto que durou 19 anos, uma filha.
Outro campo em que Delany começou cedo foi na literatura: escreveu o seu primeiro romance com a mesma idade que se casou. Era início dos anos 1960 e, em meio ao contexto de Guerra Fria, Samuel ambienta o romance num futuro pós-guerra nuclear, em que a humanidade volta a algo parecido aos tempos medievais. Em uma prosa lírica, complexa, recheada de poemas e músicas, onde a fronteira entre a tecnologia e a magia ficam borradas, ele conta a história de um jovem estudante que embarca como marujo em um navio rumo a Aptor, uma terra misteriosa, radioativa e cheia de mutantes. Esse era o tipo de doideira que ele escrevia.
Marilyn, que trabalhava como assistente na Ace Books, uma importante editora de ficção científica da época, escorregou o romance de seu então marido para a pilha de manuscritos do chefe. Resultado: The Jewels of Aptor (As joias de Aptor, sem tradução no Brasil) foi publicado em 1962, e impressionou tanto os leitores, que chegaram a especular que “Samuel Delany” fosse um pseudônimo de um autor já consagrado da casa editorial.
Samuel tinha então 20 aninhos. Era um prodígio. Desde então, passou a escrever e publicar um romance atrás do outro. Aos 24 anos, já tinha SETE romances publicados. Foi quando pela primeira vez ganhou um Nebula, por Babel-17, publicado em 1966. The Einstein Intersection, publicado no ano seguinte, repetiu a façanha de ganhar um Nebula e ser indicado a um Hugo, os dois prêmios mais importantes da ficção científica.
A esta altura, o público já estava saturado de histórias de hominhos brancos héteros conquistando o espaço, com uma visão bem desenvolvimentista e colonialista da ciência, mulheres como meros acessórios sexuais e “olha como a minha tecnologia é mais dura que a sua!”. A aposta de Delany em romances que ousavam na linguagem e apresentavam um futuro mais diverso, cultural e sexualmente, era um respiro em meio a tanta mesmice, o que parece ter chamado a atenção dos leitores e da crítica. Mas também incomodou alguns colegas.
Delany conta que, em 1968, na cerimônia em foi premiado com o Nebula por The Einstein Intersection, um escritor famosinho, em seu discurso de agradecimento, aproveitou para jogar umas indiretas para o fato de Delany ter sido premiado.
Depois de subir ao palco novamente para buscar o prêmio pelo seu conto Aye, and Gomorrah, Delany (também conhecido pelo apelido de “Chip”) volta todo feliz para sua mesa, até ser abordado por Isaac Asimov. Sim, ele mesmo, o autor de Eu, Robô e Fundação. Asimov puxa Delany para um canto e, numa tentativa bem tosca de fazer graça e quebrar a tensão daquela noite, teria dito ao jovem escritor, em tom de galhofa: “Sabe, Chip, só votamos em você para o prêmio porque você é negro!”
O episódio serviu como um lembrete a Delany: que não importava o que ele fizesse, quão bem escrevesse ou quantos prêmios conquistasse com seu trabalho, ele sempre seria visto pelos seus colegas, antes de tudo, como um homem negro.
“Você pode criar combinações de palavras mais interessantes na ficção científica do que em qualquer outro tipo de escrita. A ficção científica é sensualmente mais satisfatória de se trabalhar no nível da linguagem.”
— Samuel R. Delany, no texto “Why I Write”
É difícil tentar colocar em linha reta a trajetória de um artista que já experimentou em todas as direções possíveis e que tem mais de 40 livros publicados. Mas a ficção científica parece ter sido o campo em que Delany se sentiu mais à vontade para experimentar e transgredir as normas, da literatura ou da sociedade.
Além de abordar questões como racismo, classe e sexualidade, as histórias de Delany também eram inovadoras por apresentarem a ficção científica com uma pegada modernista.
Ele escreve sobre mundos habitados por seres andróginos, sobre linguagens criadas como arma de destruição, sobre seres humanos ciborgues que plugam máquinas no próprio corpo — isso décadas antes de vermos algo do tipo em Ghost in the Shell ou Matrix.
Mas ele não se limitou a um só gênero ou formato. Ele também escreveu romances eróticos (como Equinox, de 1973), pencas de contos publicados em antologias e revistas, ensaios, memórias, crítica literária, quadrinhos, foi até roteirista de duas edições de Mulher-Maravilha, em 1972.
Delany é o tipo de artista polímata: para além da escrita, já dirigiu um filme, toca diversos instrumentos, aprendeu a tocar violino na infância e já teve uma banda de folk rock. Isso foi no tempo em que acreditou que trocaria a carreira de escritor pela de músico. Mas logo percebeu que precisava se dedicar a uma carreira que pagasse seu aluguel. Voltou a escrever.
Com a escrita, Delany foi longe. Com Dhalgren, de 1975, um romance estranho, cabeçudo, metalinguístico, Delany foi aclamado pela crítica (para além da ficção científica) e se tornou bestseller: vendeu mais de um milhão de cópias. Ainda assim, com o tempo, precisou de novo se dedicar a uma carreira que pagasse o aluguel. Virou professor.
Foi professor de inglês, literatura e escrita criativa em diversas universidades e chegou a ser professor de escritores do porte de Octavia Butler, para quem deu aulas na oficina de escrita Clarion. Pois é, ele é a referência da sua referência. Lecionou até se aposentar, em 2015.
Hoje, aos 83 anos, Delany vive como um aposentado tranquilo com seu companheiro Dennis Rickett, em seu apartamento entulhado de livros na Philadelphia.

Quando olhamos para a carreira de um autor consagrado e premiado, tendemos a achar que, a partir do momento em que sua obra se torna conhecida, todas as portas estão abertas. Não conseguimos ver os nãos que fizeram parte do caminho. Mas eles estão lá.
No final dos anos 1960, Delany trabalhava em um romance espacial protagonizado por um músico de origem cigana e um escritor palestrinha formado numa Universidade na Lua, que se envolvem em uma treta entre dois herdeiros bilionários cuzões.
O agente de Delany leva o manuscrito de Nova para o editor de uma aclamada revista pulp da época, com a proposta de publicar a história de forma seriada. O editor responde ao agente que até gostou do que leu, mas recusou o material; ele acreditava que o leitor não aceitaria bem um protagonista negro.

Nova é um dos únicos livros da extensa obra de Delany publicados no Brasil (o outro é Babel-17). E foi a leitura que escolhi para fevereiro no Clube de Leitura Bobagens Imperdíveis.
Será também minha porta de entrada para a prosa experimental e modernista de Delany. Será que finalmente lerei uma space opera que não me entedie? Será que encontrarei alguma putaria no caminho? Só lendo para saber.
Só sei que está sendo bem divertido poder ler com a companhia do pessoal do Clube. Me permite acessar detalhes e perspectivas que talvez eu não perceberia sozinha.
Da mesma forma, espero que esse primeiro Guia de Leitura que eu trago, sempre tentando entender quem é a pessoa por trás do texto, de onde ela vem, em qual contexto ela escreveu a obra, também ajude a jogar luz no texto. Ou, quem sabe, cutucar sua curiosidade para ler Delany.
Ah, também estou animada porque teremos uma participação especialíssima no encontro ao vivo para conversarmos sobre esse livro! Em breve venho contar quem é e em qual data.
Enquanto isso, as portas do Clube estão abertas para você vir acompanhar as discussões ao longo do mês. O grupo é gratuito. Você apenas corre o risco de receber longos áudios com minhas reações e impressões durante a leitura:
► Entre no Clube
Você pode ler todos os Guias de Leitura que já mandei até agora neste link.
No dia 15 de fevereiro, completo 12 anos escrevendo newsletter. Dá para acreditar? Acho uma doideira eu ter conseguido fazer algo regularmente por tanto tempo, ainda mais na internet, em que essa quantidade de tempo convertido para idade humana dá por volta de 72 anos.
É uma newsletter vivida, experiente. Será que é chegada a hora de aposentá-la? O problema é que sigo tendo ideias, histórias para contar, vontade de escrever e de compartilhar com quem está disposto a continuar recebendo minhas palavras por e-mail. Sinto muito, minha teimosia é mais forte.
12 anos é um número que celebro, porque me diz de algo que eu continuei fazendo. E eu sou da mesma filosofia do Rocky Balboa: meço meu sucesso na escrita pelo tempo que me mantive de pé. Posso estar com a cara toda estourada, o nariz sangrando, o juiz já ter anunciado minha derrota, mas se eu continuei de pé até o último round, cumpri meu objetivo. Minha luta não é para chegar nesse tal Olimpo de escritores, alcançar um patamar habitado por poucos, tornar-se um fenômeno. Minha luta é para escrever pelo máximo de tempo que eu conseguir.
O que eu acho doido mesmo em 12 anos de newsletter é saber que muita gente que está aqui hoje me acompanha desde esses primórdios. Você é uma dessas pessoas? Há quanto tempo você lê minha newsletter? Me conta sua história, como você chegou até aqui, vou adorar saber!
Quem está aqui há mais tempo já me viu passar por tantas fases e transformações que sabe que não posso prometer nada além de que provavelmente continuarei a ser essa metamorfose ambulante. E se eu puder continuar a ter sua companhia, melhor ainda.
Então, mais do que uma data que importa para mim, é também o aniversário desse nosso relacionamento. Onde existe um escritor, existe uma comunidade que o tornou possível. Me sinto muito sortuda por minhas palavras terem reunido pessoas tão maravilhosas ao meu redor e criado conexões que vão para além de mim, criando vínculos profundos que sei que vão se estender no tempo. O que já é uma recompensa maior do que eu poderia esperar como artista, especialmente uma que escreve para se sentir menos sozinha. Muito obrigada, de coração.
Para celebrar esses 12 anos, criei um cupom festivo para você fazer uma assinatura anual de Uma Palavra com desconto. Em um pagamento único, você vem para mais perto do meu processo e garante acesso às recompensas do Pacote Pesquisador por um ano, além de garantir à escritora que você gosta um pacote de tranquilidade para continuar trabalhando.
Basta clicar no botão abaixo para resgatar o desconto. Vem dar mais uma volta ao redor do Sol do meu lado?
Enquanto isso, vamos nos falando.
Até lá!
Beijos comemorativos,
















Parabéns pelos 12 anos! Eu acho que te acompanho... desde o início desse percurso, talvez? Lembro muito de te ler teus textos durante o meu mestrado (que finalizei em 2015) porque os associo na minha memória ao apartamento onde eu morava na época. E lembro que antes do Bobagens você teve um podcast quando a podosfera ainda era mato (foi talvez o primeiro podcast BR que ouvi). Suas palavras me fizeram companhia em muitos momentos ao longo desses anos (sejam seus livros, newsletters, podcasts) e espero continuar pensando, me entretendo e aprendendo com elas por muitos mais! Abraços agradecidos 🥰
Primeiro queria falar que eu já adicionei os livros do autor na lista e que não fazia ideia dessa história sensacional que ele viveu! Depois, feliz 12 anos!!! Fui procurar quando foi que recebi o primeiro email pós inscrição na newsletter e aparentemente foi em 2019! Muito feliz por ter conhecido sua escrita antes do fim do mundo, todas as edições e o podcast me ajudaram a passar por todas as grandes loucuras que a vida contemporânea tem dado para a gente! Parabéns!