O irresistível poder da irmã mais velha
E uma teoria para o mistério jamais resolvido em Macondo.
Era uma vez duas irmãs que estavam numa eterna disputa por espaço. Brigavam, mas eram muito parecidas. Cada uma dominante, à sua maneira.
A mais velha era expansiva, vibrante, muito sedutora. Chamava a atenção de longe. Boa em conquistar com nada mais que um olhar, um gesto. Queridinha do cinema, capa de revista, era muito popular.
A mais nova era cabeçuda, palestrinha, intelectual. Amava livros. Às vezes, podia ser inacessível, embora se esforçasse para estar em todos os lugares. Cheia de regras. Implacável como a lei.
Com frequência, precisavam trabalhar juntas. Quando uniam forças, podiam ser imbatíveis, muito eficientes. Mas nem sempre funcionavam em harmonia.
Para de usar minhas coisas!, uma vivia dizendo para a outra.
A mais velha reclamava de estar sendo sufocada pelo excesso de explicações da mais nova. Fala demais! Por sua vez, a caçula se ressentia quando diziam que a irmã valia mil vezes mais que ela. Está sempre no centro das atenções, que ódio!
A caçula acusava a primogênita de ser manipuladora, mentirosa. Como se ela mesma não tivesse suas próprias artimanhas. Cada irmã tinha uma forma bem particular de criar ilusões.
Eram mesmo muito parecidas.
Uma irmã era a imagem. A outra, a palavra.
Ainda que vivessem competindo, eram inseparáveis.
Mas a palavra andava cansada da presença da irmã. A imagem dominava cada vez mais espaço na sociedade, avançando a passos firmes, com suas pernas longas e bem torneadas, o salto-alto um arraso. Imagem, imagem, imagem, as pessoas só queriam saber dela. Era imagem que dava grana, que garantia o sucesso, que gerava engajamento.
O que ela tem de tão especial?
Palavra estava convencida: a irmã só conseguiu chegar onde chegou usando sua beleza para enganar as pessoas. Restava a ela ficar resmungando pelos cantos por não ser tão reconhecida, por só ser usada de suporte.
A autoestima da palavra andava em baixa, mas isso não mudava o fato de que ainda tinha um poder tremendo de transformar a realidade. Só precisava se lembrar que, da mesma forma que a imagem conseguia dizer muito porque sabia formar palavras na cabeça das pessoas, palavra também era capaz de criar imagens.
Elas eram mesmo muito, muito parecidas.
Quando envelhecer, quero ser ilusionista
"Quando eu tinha três anos, eu queria ser um elefante. Não deu certo. Quando eu tinha 15 anos, eu queria ser maestro de orquestras. Depois me disseram que, para ser maestro, era preciso saber ler música. Então fui reduzido a ser um artista."
— William Kentridge
De uma das coisas mais inspiradoras que assisti nos últimos tempos: a série Self-portrait as a Coffee-Pot ("Autorretrato como uma cafeteira", em tradução literal). Nela, somos convidados a entrar na bagunça criativa do multiartista sul-africano William Kentridge, em seu estúdio em Johannesburg.
Mais que um documentário mostrando os bastidores de sua produção, essa série nos leva para dentro da mente de Kentridge (um dos mais geniais artistas vivos da nossa época, bom frisar). Não nos poupa do caos, das manchas de tinta, das paredes cobertas de papéis, da presença de visitantes, seja bailarinos, músicos, atores ou ratos feitos de papel que saem de seus esconderijos quando ninguém está olhando.
Difícil explicar. Tem que assistir para entender a brisa. Mas se eu não puder colocar em palavras, a imagem terá vencido mais uma vez? Vale uma tentativa, uma palavra, que seja: é teatro. Ou melhor: um espetáculo de ilusionismo.
É uma doideira que mistura animação stop-motion, ilustrações feitas a nanquim e carvão, colagens, dança, ensaios filosóficos, questões políticas, maquetes de papelão, além de truques de edição e de projeção, que fazem Kentridge caminhar pelas folhas de seu caderno, ou aparecer duplicado na sala para conversar consigo mesmo em discussões poéticas, divertidas e muito inteligentes. Não são irmãos, são o mesmo velho!
Eu adoro assistir esse tipo de coisa que me deixa atordoada tentando imaginar como diabos aquilo foi feito, ou me perguntando: "maluco, quanto tempo será que ele levou para fazer isso?".
Também me impressionou ver alguém vestido com uma camisa social branca impecável ir trabalhar com tinta preta e carvão sem se manchar (tanto). Tem que ter coragem.
"Mas, às vezes, são coisas supérfluas que são necessárias. Se tudo for lógico e estiver no lugar certo, então não estamos mostrando o estúdio".
— William Kentridge
Autorretrato
William Kentridge diz que o trabalho que você acumula durante o período de uma vida se torna outra forma de descrever a si mesmo.
Não importa o que você esteja representando: uma cafeteira, um rinoceronte, um vaso de flores. Qualquer coisa que traduzimos através da ação do nosso gesto e transformamos em traço (letras não deixam de ser desenhos!), torna-se também uma forma de revelar quem somos.
Inspirada por ele, fiz uma série de cafeteiras para ver se ele tem razão.
Experimente você também. Vou adorar ver a sua cafeteira depois.
Outro ilusionista
Um cara branco pirando sozinho no seu estúdio, trancado no isolamento pandêmico, fazendo arte com câmeras, projeção e música? Acho que já vi isso antes. Sim, como não? Inside, especial de comédia do Bo Burnham, que já vi e revi a ponto de decorar cada música besta.
Claro, é muito diferente da proposta de William Kentridge. Tem mais cenas sem camisa, para começar.
Em Inside, Bo Burnham faz humor sobre a loucura que é viver cronicamente online no século 21 (no meio de uma pandemia!!). Mas faz isso manipulando luz e cores para criar a ilusão de dobrar o tempo, conversar consigo mesmo e virar um personagem de vídeo-game.
Escrevi sobre Inside numa edição antiga da newsletter (esta), mas você pode ler lá no meu blog.
Narrar sem palavras
Para as histórias que estou trabalhando no momento, estou tendo que aprender a contar histórias com imagens. Eu, tão apegada ao domínio da palavra, estou tendo que me desprender delas para deixar que as imagens falem.
É a minha pesquisa do momento. Estou estudando. Tentando aprender a colocar essas duas irmãs para dançar. Comecei um curso de narrativa visual ministrado pelo brabo William Mur. Tem me ajudado a prestar mais atenção na linguagem visual e a descobrir alguns truques muito usados no cinema.
Outra coisa boa de estudar é poder organizar o raciocínio com desenhos:
🚨 [o bloco abaixo contém spoilers de Cem anos de solidão, série & livro] 🚨
Uma teoria para o mistério jamais resolvido em Macondo
Não me lembro de já ter visto uma adaptação tão fiel ao original quanto a série Cem anos de solidão. Para ser sincera, nem achei que tal coisa fosse possível. Acho que nem o García Márquez achava. O que fizeram foi praticamente transportar um livro, palavra por palavra, vírgula por vírgula, para dentro de uma narrativa audiovisual.
Uma aula de como transformar palavras em imagens.
Uma das cenas que mais me impressionou foi a morte de José Arcádio, no último episódio. Um tiro seco a portas fechadas, o sangue que escorre em linha reta, atravessa quilômetros, faz curva e sobe escadas, até chegar aos pés de sua mãe Úrsula. Putz, que forma poética de ilustrar, com aquele toque de realismo mágico, a intuição de uma mãe pressentindo de longe que algo ruim aconteceu ao filho.
Que genial adaptação, pensei, sem me atentar que essa ideia já estava presente no livro! Recorri ao texto (tradução de Eric Nepomuceno):
"Assim que José Arcádio fechou a porta do quarto, o estampido de um tiro de pistola retumbou pela casa. Um fio de sangue escorreu por debaixo da porta, atravessou a sala, saiu à rua, continuou seu curso direto pelas calçadas desiguais, desceu escadarias (...) passou sem ser visto por baixo da cadeira de Amaranta, que dava uma aula de aritmética para Aureliano José, e se meteu pela despensa e apareceu na cozinha onde Úrsula se preparava para quebrar trinta e seis ovos para o pão."
A morte ficou marcada como "talvez o único mistério jamais esclarecido em Macondo". José Arcádio é encontrado estirado no chão, de boca para baixo, com o sangue escorrendo de seu ouvido direito. Não foi encontrado nenhum ferimento, nem arma. Rebeca, a esposa, era a única pessoa no local, mas declarou não ter visto nada nem ninguém entrar. Era improvável que ela tivesse qualquer motivos para matar o homem que tanto amava.
José Arcádio tinha muitos inimigos na cidade. Desde que voltou a Macondo, tinha virado um verdadeiro grileiro de terras. Usava de intimidação e da força para expulsar os antigos proprietários, clamando que as terras pertenciam ao seu pai e que ele já estava louco quando as cedeu para os outros fundadores da cidade. Teria sido um deles que o matou?
As imagens da série me ajudaram a chegar numa teoria. Não, ninguém o assassinou. Também não foi suicídio. Sequer tinha buraco de bala! O sangue saía do ouvido. A explosão do tiro foi interna. Foi isso o que o matou: José Arcádio havia se transformado em uma carabina. Tanto se entregou a truculência que virou, ele mesmo, uma arma. Disparou sozinho.
Não é nada absurdo, se você lembrar que o cadáver estava envolto em um fortíssimo cheiro de pólvora queimada, que não saía por nada no mundo, nem depois de ferver o corpo de José Arcádio com cominho e folhas de louro, nem enterrando o sujeito em um caixão reforçado com chapas de ferro, porque até "o cemitério continuou cheirando a pólvora até muitos anos depois". A pólvora estava sendo liberada de seu próprio corpo de homem-espingarda durante o processo de decomposição.
Situações absurdas só podem ser respondidas com o absurdo. Faz sentido?
Aqui uma matéria no The New York Times dissecando os bastidores da produção da série.
Make internet for weirdos again
No dia em que o Kareem Rahma me convidar para o Subway Takes, um programa de entrevistas curtíssimas dentro do metrô em Nova York, já sei qual será o meu take.
Foram as pessoas bonitas que estragaram a internet.
Pensa comigo. Quando apenas as pessoas esquisitas e com problemas de socialização frequentavam a internet, o que tínhamos? Internet baseada em texto, a era de ouro dos blogs, livre circulação de informação, espaço para contracultura, um refúgio contra a opressão do mundo real.
O que começou a acontecer quando pessoas bonitas começaram a invadir? Blogueira deixou de ser "pessoa que escreve em blog" para significar "rica que promove consumo desenfreado e pressão estética". Passamos a ter vídeos de dancinha, pessoas monopolizando atenção sem criatividade alguma, cultura da cópia descarada, massificação e uniformização, todo mundo com a mesma cara, celebridades fazendo publi a cada esquina, página de fofoca, comparação e depressão, internet como lugar da qual as pessoas querem fugir.
Fora bonitos! Vão usar esse carisma e desenvoltura social no mundo lá fora, que é o seu lugar!
NOS CAPÍTULOS ANTERIORES…
☞ A diferença entre o fundo do poço e o precipício (edição secreta)
Esta edição levou aproximadamente 5 mil anos para ser escrita, precisou de pelo menos dois galhos da árvore linguística, um alfabeto, um punhado de artistas espalhados pelo planeta, uma cafeteira italiana e uma montanha de areia transformada em chips eletrônicos de silício. Para sua elaboração foram consumidos cerca de 800 ml de água (o que é menos do que a média diária recomendada pela OMS para um ser humano adulto).
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Um beijo,




















Depois desse texto, percebi que a cada dia estou mais parecida com a minha cafeteira: um pouco enferrujada, fã de golas altas e tons terrosos.
Eu tenho uma certeza muito forte sobre o que estragou a internet, a qual já validei com familiares e amigos, que concordaram. Foi o conceito de “viralizar” a partir do uso do botão de compartilhar/encaminhar. A minha teoria é bem simples: se as redes sociais removessem os seus botões de compartilhar/encaminhar, a internet seria um lugar MUITO mais salubre (como era nos tempos de blogs, mIRC, web chats, ICQ, Fotolog, etc).