Os anos 60 foram bem tumultuados.
A Guerra Fria envelopava tudo no discurso “nós x eles”. Havia o medo do mundo se acabar em bomba atômica. Tinha início a corrida espacial. O ser humano chegava à Lua. O forno de microondas chegava à casa das pessoas, com outros maravilhosos eletrodomésticos que prometiam libertar a dona de casa do trabalho braçal.
Teve também a inauguração de Brasília, como a nova capital do Brasil. Ditadura militar. Movimentos de contracultura. A popularização das drogas psicodélicas. A chegada da pílula anticoncepcional. A luta feminista pela liberação sexual.
Os Jetsons passavam na TV. Nos cinemas, 2001: Uma Odisseia no Espaço. São registrados os primeiros casos de abdução alienígena. Enquanto isso, Tom Jobim cantava a Garota de Ipanema num doce balanço a caminho do mar. Ah, por que estou tão sozinho?
Em meio a essa turbulência que foi a década de 60, Dinah Silveira de Queiroz escreveu contos de ficção científica. Foram publicados nos livros Eles herdarão a Terra (1960) e Comba Malina (1969).
Neles ficaram o registro de várias angústias e visões dessa época, em uma sequência de histórias que passam por um Rio de Janeiro decadente e distópico, por alienígenas chegando à Terra, por viagens astrais para outros planetas, por robôs cariocas conquistando donas de casa e inteligências artificiais se alimentando do trabalho de escritores. Pensando bem, ela ainda conversa com os nossos tempos.
Dinah, que a esta altura já era uma bestseller consagrada, acaba levando a ficção científica para um público mais amplo. Me diz qual livro brasileiro de ficção científica HOJE esgota a primeira tiragem em 20 dias? Sério, eu gostaria de saber.
Dinah tinha alcance. Ela não parecia escrever apenas para os fãs do gênero, mas também para os leitores que amavam seus romances históricos, que ouviam seus textos na rádio diariamente, que acompanhavam com ansiedade seus folhetins na revista. Ela escrevia de forma popular; de uma forma que puxava os cenários fantásticos para perto da realidade conhecida do leitor. Ela fazia o estranho parecer próximo.
Vai ver por isso devorei o livro. Senti que a lia numa revista, como um folhetim. Deslizava na manteiga. O livro (nesta edição da Instante, com os dois livros juntos) passa por diferentes temas, tempos, lugares, passa malemolente pelo campo da ficção científica e da fantasia, embora a solidão apareça bem no fundo, como um cordão que os conecta. Solidão e homens bem ridículos; é o que aparece de forma bem consistente nos dois livros.
Em Eles herdarão a Terra, Dinah pega mais cenários emprestados da realidade. Em Comba Malina, onde encontrei meus contos favoritos, Dinah dá uma pirada e constrói seus próprios mundos. Vai até onde nenhuma mulher jamais esteve: na atmosfera árida do planeta Vênus.
Já no final dos anos 60, esses contos parecem mostrar uma Dinah mais madura e à vontade com a ficção científica. Ou, como a Ana Carla lá no grupo do Clube de Leitura muito bem apontou, faz sentido que nos anos mais tensos da ditadura militar, em que não se podia de falar de alguns assuntos tão diretamente, ela tivesse escapado para cenários mais distantes para conseguir escrever e criticar o que quisesse.
Outra constante nos contos da Dinah são as referências cristãs. Não seria um livro de ficção científica tipicamente brasileiro (e latino-americano!) se não estivesse inteiramente besuntado de referências ao catolicismo.
Como a ateia mais católica que existe (competindo apenas com a Naieni), resolvi me debruçar sobre essas referências catequéticas que Dinah escondeu no livro (nem sempre fazendo questão de esconder tão bem).
A começar pelo título do conto que dá nome ao livro, tirado de um versículo bíblico. Está em Mateus, capítulo 5, versículo 5:
“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a Terra”.
Há a culpa cristã materializada em um personagem que muito me lembrou Bentinho, do Dom Casmurro. Sacrifício é um tema que se repete em alguns contos. Há referências a Jesus como um personagem conhecido interplanetariamente e ao Natal como uma data significativa mesmo em um futuro distante.
No conto “Universidade Marciana”, o Vaticano é o único lugar do planeta que aceita sediar um grupo de estudos liderado por aliens. Neste conto, a figura dos alienígenas se confunde com as estátuas dos santos. Maneí, a mestra desse grupo de estudos, é um ser cósmico vinda do planeta Deimos, onde seu nome significa “Mãe”.
Outra referência à mãe de Jesus aparece no conto “Eles herdarão a Terra”, onde a personagem Tudinha, filha do dono do farol, é escolhida por um alienígena para conceber sua semente e assim gerar uma nova raça híbrida que irá povoar a Terra, numa alusão ao episódio em que a Virgem Maria recebe a visita do anjo Gabriel e engravida do Espírito Santo.
Gosto dessa leitura pela pergunta que ela suscita: já pensou Jesus foi um alienígena? O ET de Belém?
Esses dois contos são dois lados opostos da mesma especulação: o que aconteceria se alienígenas chegassem à Terra?
Em “Universidade Marciana”, temos uma versão pacífica, em que os alienígenas vêm à Terra para compartilhar seus ensinamentos e assim ajudar os humanos a se tornarem seres mais iluminados.
É em um ambiente de estudo e pesquisa que acontece esse contato. Em vez de militares, como é comum em histórias do gênero, especialmente em narrativas estadunidenses, são pesquisadores de diversas áreas e diferentes países que interagem com os alienígenas, como um físico belga, uma astrônoma alemã, um jornalista novaiorquino, um historiador russo e um carioca filósofo de botequim.
Vimos algo parecido no filme A Chegada, adaptado de um conto de Ted Chiang publicado 38 anos depois deste conto da Dinah: nessa história, cabe a uma linguista o pepino de decifrar o que querem os visitantes extraterrestres.
Já em “Eles herdarão a Terra”, temos uma versão mais ameaçadora de uma invasão alienígena. Primeiro, porque Dinah os representa como invejosos: eles desejam a Terra porque nosso planeta tem tudo o que o deles não tem. Logo, é do interesse deles que os atuais inquilinos desapareçam e deixe o imóvel livre para eles virem morar.
“Ah, mais uma história de ETs invadindo a Terra para exterminar a raça humana!”. Mais ou menos. Diferente de Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, em que os alienígenas chegam com o pé na porta disparando raio laser a torto e a direito, derrubando prédio e tocando o terror, os invasores do conto da Dinah seguem a lógica do meme “do nothing, win”. Pra quê mobilizar esforços de guerra para exterminar o ser humano se já estamos fazendo isso muito bem sozinhos, obrigada?

O alienígena desta história aponta o dedo sobretudo para a incompetência masculina: além de se matarem em guerras sem sentido, os homens da Terra são tão bosta que suas mulheres prefeririam por vontade própria ficar com os alienígenas do que com eles!
“Vocês pensam que têm as suas mulheres, mas não possuem as suas mentes. À noite, nós sonhamos que elas nos mandam o calor de suas aflitas solidões. Vocês nada sabem do requinte que é a posse de um espírito. A união material pouca coisa é perto dessa outra. Levarei sua irmã daqui com sua própria vontade, já que a vontade é uma das muitas fraquezas que vocês têm, segundo nossos estudos.”
— Fala do alienígena em trecho de “Eles herdarão a Terra”
Dinah subverte a lógica militar tão comum em histórias de invasão alienígena; aqui, o campo de batalha é o corpo da mulher. Com isso, deixa vestígios de uma época em que crescia a reivindicação pelo direito ao próprio corpo — uma luta que até hoje ainda tem razão de existir.
Ou ela estaria fazendo referência à violência do processo de colonização que originou o Brasil, baseada na exploração da terra e da violência contra a mulher? Quem herdará essa terra que chamaremos de Brasil?
Dinah não deixa respostas definitivas. Aposta na ambiguidade para nos deixar imaginando o que realmente aconteceu com seus personagens. Não fica claro se Tudinha realmente consente com o plano do colonizador e, como Maria na Bíblia, deixa seu inequívoco sim.
Aí também reside a força da literatura de uma escritora habilidosa em criar sucessos de público: abrir espaço para diferentes leituras. É nessa conversa com o leitor que as histórias são capazes de resistir ao tempo e alcançar o futuro. Vamos então ter muito a discutir sobre elas.
Evento: “ELES HERDARÃO A TERRA: ficção científica à brasileira”
Teremos muito a conversar sobre essa coleção de contos fantásticos da Dinah no segundo encontro ao vivo do Clube de Leitura Bobagens Imperdíveis!
O grupo decidiu democraticamente que o encontro para conversarmos sobre o livro de janeiro será no final de fevereiro, no melhor espírito brasileiro de “o ano só começa depois do Carnaval”.
Não é preciso ler o livro inteiro para participar!
Venha para a conversa conhecer mais sobre a obra de Dinah, debater as questões de gênero presentes na obra, saber mais sobre a produção brasileira de ficção científica e explorar o imaginário da época.
Informações
📅 Data: Sábado, 28 de fevereiro
⏰ Horário: 14h às 16h (horário de Brasília)
📍 Local: Online via Zoom (participe de qualquer lugar do planeta!)
🎟️ Ingressos: a partir de R$ 15
🚨 Você que me apoia, fique até o final deste e-mail para resgatar seu cupom de desconto!!
✨ O encontro será gravado e contará com emissão de certificado.
Vagas limitadas. Conto com a sua presença!
Em fevereiro começamos a leitura de “Nova”, romance afrofuturista de Samuel Delany, também publicado na louca década de 60.
Todos são bem-vindos para participar das discussões ao decorrer do mês no grupo, que é gratuito.
Você pode conferir a programação, ver se alguma leitura te interessa, e entrar no nosso grupo na página do Clube de Leitura.
Um beijo e até a próxima,















