Dessa vez, voltar ao Brasil foi a experiência de descobrir um Brasil novo. Como posso ter vivido quase 40 anos e ainda não ter passado por nenhuma cidade no Nordeste? Eu sei, vacilo. Mas dei um jeito de corrigir isso, desbloqueando dois novos pontos no meu mapa: Salvador e Lençóis Maranhenses.
Os lugares escolhidos existiam apenas no meu imaginário, como uma colagem com pedaços do que vi em filmes ou fotografias, dos relatos que ouvi, do que li, do que já vi no clipe do Michael Jackson; mas é impressionante como tudo se desmancha diante da experiência de estar de fato lá, de constatar que a realidade vai muito além da imaginação, de perceber que o fantástico pode sim ser real.
O choque de voltar ao Brasil começa pelos sentidos. Calor. Umidade. Suadeira. A pele ganha até um glow. A luz é tão intensa que as cores ficam mais quentes, mais vivas, como se eu passasse a enxergar tudo com um filtro do Instagram que puxa a saturação até o talo. Brasil é a terra do exagero, como já sabemos.
Em seguida, vêm os sons. Não é preciso fazer esforço algum para escutar as conversas alheias, porque as vozes estão todas ajustadas no volume máximo. As pessoas falam alto, falam muito, puxam assunto, dão risada, gritam, cantam, de repente aparece alguém tocando um tambor. Quase não há espaço para o silêncio. É, ao mesmo tempo, lindo e perturbador.
No início, fiquei pirando nos cheiros, nos sabores, nas cores do céu, na transparência da água, nos tipos de planta que aparecem (aquilo é um cajueiro??), nas palavras que escuto (um baiano falando “esqueça” tem um sabor especial). Parece até que estou chapada de ácido, mas não, apenas acabei de chegar de viagem.
Como já me disse um dos amigos do intrépido grupo que me acompanhou em parte desta aventura: “nos primeiros dias em um lugar novo, você tem uma sobrecarga cognitiva. Viajar é o mais próximo da experiência de usar drogas, sem precisar usar drogas”.
É pra isso que a gente vai para tão longe, pega uns três aviões, Uber, van, barco, quadriciclo, caminhonete, até se ver rodeado de nada mais que areia? Não era melhor só acender um beque?
Parece que cheguei em outro planeta.
A sensação de estar nas dunas dos Lençóis Maranhenses é entrar no cenário de um filme de ficção científica. Duna, Star Wars, o clipe da Anitta com a Pablo Vittar. Tudo parecia ter sido filmado ali. De fato, um dos filme dos Vingadores foi. Thanos em pessoa já esteve naquelas dunas!!
Por vezes, parecia Mad Max, com motoqueiros em quadriciclos para cima e para baixo, os rostos cobertos por balaclavas, enormes picapes cruzando o horizonte de areia. Sim, um Mad Max, só que com mais cajueiros e cabritos.
Foi inevitável nos sentirmos no filme Jurassic Park, quando passamos pelo portal da entrada, sacolejando na parte de trás de uma picape como crianças em uma montanha-russa, lutando contra a gravidade das subidas e descidas. Mas, em vez de dinossauros, vimos pelo caminho corujas-buraqueiras, gaivotas, vacas, cavalos, jegues, bodes, até um tatu.
Mas o bicho que estávamos realmente interessados em ver era um peixe que andava sobre a areia. Eu duvidava que existisse. Marcos insistia que já tinha visto vídeos sobre ele, mas eu sempre digo para não confiar no que dizem na internet, onde tudo é ficção.
Perguntamos ao nosso paciente guia Alan se o tal peixe existia ou era lenda. “Lenda, se eu já vi? Até já comi”, ele respondeu.
Ele contou que esse peixe, também chamado cascudo ou tamoatá, desenvolveu a habilidade de respirar fora d’água e rastejar na areia, usando as nadadeiras como bracinhos, para encontrar água quando o lago onde está começa a secar.
Na temporada da seca, quase todos aqueles lagos desaparecem. O vento remodela as dunas o tempo todo. Na próxima temporada, a chuva enche os lagos em um local diferente. Não há endereço fixo no meio das dunas. Claro que um ambiente como esse ia gerar um peixe que diz “chega”, pega suas malinhas e vai atrás de outra vizinhança.
Foi um peixe levado por esse mesmo ímpeto nômade, há milhões de anos, que achou que seria mais jogo se aventurar em terra firme para procurar petiscos, e olha só onde estamos hoje. Alguém precisa avisar a esse cascudo para não cometer o mesmo erro.
Passei a prestar atenção nas marcas deixadas na areia por todo o resto da viagem, procurando vestígios dos tamoatás. Até cheguei a cruzar com um rastro curioso, que serpenteava com as formas de uma corrente. Marcas de cobra? Ou de um pneu de bicicleta andando em curvas desgovernadas? Infelizmente, não avistei peixe algum na areia. As lagoas estavam enchendo, os peixes deviam estar devidamente acomodados debaixo d’água.
Alan nos explicava como as aves, provavelmente gaivotas, eram responsáveis por carregar em seu corpo ovas que eventualmente eclodiam e povoavam de peixes as lagoas temporárias, reiniciando o ciclo de peixes que logo precisariam aprender a sair dali. “A vida encontra um jeito”, um amigo concluiu. E de novo voltamos a Jurassic Park.
Depois de nos encharcamos de chuva e lagoa, fizemos uma parada para almoçar no meio do caminho, em um pequeno povoado nas proximidades do Parque. No restaurante da Regiane, tivemos a melhor refeição da viagem. Não é publi, apenas fatos. Tudo muito bem feito, tempero caseiro, feijão com gosto de amor, uma cocada de outro mundo. Posso dizer com tranquilidade: a melhor comida de Lençóis.
Os borrachudos da região também concordam, porque você faz parte do cardápio. Não adianta se lambuzar de repelente. Os borrachudos vão encarar como um molho de salada, como um mero tempero para a sua pele macia, para seu sangue saboroso. Todas as espécies saem satisfeitas, de barriga cheia.
“A duna sempre vence”, Alan explica, do alto de uma duna que parecia uma muralha dividindo dois mundos: de um lado, mata fechada, do outro, areia a perder de vista.
Ele conta como a areia vai avançando devagar, carregada pelo vento, até cobrir a mata, sufocando a vegetação, transformando tudo em duna.
Outro dia, passamos pelas ruínas de um povoado tomado pela areia. Soube também de um assentamento construído há décadas para pesquisadores da Petrobrás que foi engolido pelas dunas. Restaram apenas cacos. Sem falar nas árvores secas espalhadas pelo caminho, como esqueletos tombados.
A areia é voraz, faminta, insistente.
Ela avança com uma paciência de milênios. Acredita-se que foi um processo de mais de dez mil anos para as dunas se formarem. Milhares de anos do rio carregando cada grão até o mar, do mar recuando e fazendo a areia secar, do vento empurrando a areia até ali, até se acumularem em dunas da altura de prédios, até se espalharem por um território maior do que a cidade de São Paulo.
Lembro das palavras de Alan quando ainda hoje encontro areia de Lençóis saindo da minha mochila. A areia entra em todos os lugares, invade sua casa, se enfia no seu celular, na sua bolsa, no seu ouvido, pega carona no seu corpo sem pedir permissão. Não adianta lutar contra ela, é uma batalha perdida.
Alan, que cresceu ali e trabalhava como guia há mais de seis anos, que viu muitas secas e estações chuvosas, que viu turistas subestimando as distâncias e achando que conseguiam atravessar uma lagoa a nado, contou do fenômeno de quando as lagoas “estouram”. Elas literalmente fazem o barulho de uma enorme explosão, quando conseguem romper uma duna e escapar de sua clausura de areia, encontrando um caminho para fugir para o mar.
Quer dizer que a duna não era assim tão invencível. Areia vence mata, mas água vence areia, e os dois vencem a gente. O Joken-Po dos Lençóis.
Então não são só os peixes que fogem, a água também sai andando? Se eu contar, ninguém acredita. Parecia um lugar impossível. Deserto, mas cheio de água. Uma mistura doida de caatinga, cerrado, mangue. Um cenário que se mexe sozinho. Como navegar em um território tão impermanente?
O ambiente em que vivemos tem o poder de nos moldar.
É isso o que faz a cultura humana ser tão diversa quanto são diversas as possibilidades de ambientes nesse planeta. Por isso sou da opinião de que o Brasil deveria ser dividido não em regiões, mas em biomas. De onde você é? Sou do Cerrado. Sou da Amazônia, sou da Caatinga, assim por diante. Essa divisão já estava aqui bem antes de desenharmos linhas por cima delas. Também acho que carrega bem mais significado do que se identificar com pontos cardeais.
Foi interessante observar como a areia influencia o ritmo das pessoas, o movimento do lugar. Ficamos em Atins, um vilarejo mais isolado, acessível apenas de voadeira pelo Rio Preguiças, onde as ruas são todas de areia.
Eu e minha amiga descobrimos, quando inventamos de ir ao mercado perto de meio-dia comprar os ingredientes do almoço, que éramos as únicas trouxas andando a pé aquela hora. Por pouco não conseguimos encontrar uma loja aberta, pois tudo fecha ao meio-dia para a sesta. Andar debaixo daquele sol numa areia de derreter chinelos não era mesmo uma boa ideia. Esperto é ter seu próprio quadriciclo.
Não adianta brigar com a areia, nem com o impiedoso sol do Maranhão. A ordem é não se mover entre as 11h e as 14h. Todos buscam um abrigo perto do ar-condicionado ou do ventilador mais próximo até o sol baixar. Quando anoitece, as ruas ficam vivas. Saem de seus esconderijos as pessoas, os cachorros, gatos, os jegues, as vacas, que se esparramam tranquilas no meio da rua, deitadas com seus bezerros.
É como viver dentro de uma ampulheta, então é preciso fazer um pacto com o tempo. Parar de tentar ir contra ele. Deixar fluir. Adaptar a vida ao movimento das marés, ao período de chuvas, ao tempo de seca, ao fluxo de turistas vindo como mais uma camada se sobrepondo a do nível da água.
A areia exige que você caminhe diferente. É preciso aprender a descer as dunas com o calcanhar primeiro, que é para não escorregar e sair rolando, se ralando inteira na areia. É preciso se mover como o peixe, em movimentos constantes, sinuosos, de quem tem fé que do outro lado daquela imensa duna vai haver um lago morninho. Como eles podem saber?
Também não adianta querer andar em linha reta se o caminho vai mudar de lugar. Às vezes, precisamos pegar um desvio para continuar avançando. Eric, o jovem piloto que nos levou pelo Parque, sabia disso. Lia o caminho entre as dunas, previa a profundidade das poças, sabia qual direção pegar em um caminho que o vento já tinha redesenhado.
“Chega uma hora você não enjoa de tanta areia?”, chegamos a perguntar, imaginando se ele não se cansava de ver só duna e lagoa, duna e lagoa, se ele não fantasiava largar tudo para ir trabalhar num escritório, passar o dia na frente de uma tela.
“Enjoa nada”, ele dá risada. “Todo dia é diferente. O desenho das dunas muda todo dia. As cores, as nuvens. Toda estação, as lagoas são outras. Não tem um dia igual ao outro, todo dia é um espetáculo novo”.
Até então, eu só tinha ouvido isso do pessoal do teatro.
“Já reparou que muitas religiões nasceram do deserto?", meu amigo apontou.
Não me espanta que se isolar no meio do nada, depois de um dia de sol rachando na cabeça, você tenha alguma experiência transcendental, comece a trocar ideia com deus, ou tenha que recusar pela décima vez o diabo tentando te oferecer um pãozinho.
Tem mesmo algo de religioso na experiência de andar no deserto.
Por isso ir tão longe? Por isso escalar a montanha, se meter no meio do deserto, atravessar o oceano? Para se cercar de imensidão, para se sentir pequena, para poder ter um horizonte amplo diante de si quando você se sentir numa encruzilhada.
Ou simplesmente para buscar outra repetição. Para ter silêncio. Para poder ouvir os próprios pensamentos, sem a interferência das ideias alheias, do algoritmo, da comparação com o vizinho, porque você vai estar onde simplesmente não tem ninguém por perto. Para eliminar os elementos ao redor, deixar apenas o essencial. Só água e areia. Um enorme espaço vazio.
E então ter a visibilidade de que você sabe a direção, de que os ventos mudaram, que os caminhos estão abertos, de que todo aquele espaço também existe dentro de você.
Eu temia voltar da viagem com as tábuas do dez mandamentos. Em vez disso, voltei com essa newsletter, pois incapaz de resumir qualquer coisa em apenas dez tópicos.
Todas as fotos desta edição são do Marcos Felipe.
⏳ Mais areia
Também escrevi sobre como o cenário desértico do Atacama ficou impregnado em mim no texto O Atacama não esquece
Formas de escrever o tempo: um texto sobre o filme Casa de Areia, com as gigantes Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, ambientado no cenário dos Lençóis Maranhenses
— O homem pisou na lua, mãe.
— O homem pisou na lua? Como, filha?
— Num foguete. Numa espaçonave.
— E voltou mais moço, não voltou?
— Não. Acho que voltou até mais velho.
— Ah. E ele encontrou o quê na lua?
— Nada.
— Nada?
— Nada. Dizem que… areia.
— Areia?
— É, areia.
Um beijo e até a próxima, em algum lugar,

















Lindo este texto. Lindo o Brasil. Fui no início do ano conhecer os Lençóis e já é um dos meus lugares preferidos no mundo
Que relato sincero e importante!