Chegou a lunática
🗝️ Contém novidades e desconto para o evento “Afrofuturos”, com Anne Quiangala.
O primeiro texto desta edição é aberto para todos os meus leitores. O segundo texto, sobre meus bastidores, é exclusivo para meus apoiadores, que me ajudam a manter a conta da terapia em dia. Agradecida!
Nunca acreditei tanto nos astros como agora. Foi Saturno se alinhar com Netuno que explodiu mais uma guerra. Leio que essa conjunção, que acontece uma vez a cada geração, é acompanhada de colapsos estruturais, do nascimento de uma nova ordem. Da última vez que aconteceu, caiu o muro de Berlim. O que vai cair dessa vez? Pode não ser exatamente o que a gente espera que caia: um avião lotado de bilionários.
Suspendo temporariamente a hipótese de que seja mera coincidência em meio a um Universo regido pela aleatoriedade. Decido que sim, toda essa instabilidade, insistência na burrice e o desânimo geral que se abateu sobre nós, por termos que produzir enquanto o mundo esfarela ao nosso redor, deve sim ter alguma influência das estrelas. E daí se for alucinação minha? Agora só o robô pode alucinar? Já não basta ter ficado com todos os travessões?
A palavra lunático deriva do latim e quer dizer “da Lua”. O termo era usado para falar de pessoas com distúrbios mentais, afetadas por algum tipo de insanidade. Acreditavam que a loucura era causada pelas fases da Lua. Que ela mexe com nosso humor, ainda hoje tem quem acredite. Aliás, a palavra em alemão para humor, Laune, também deriva de Luna, do latim. A ideia persiste há tempos. Se a Lua mexe com as marés, por que não iria afetar criaturinhas sensíveis igualmente compostas de água e microplástico como nós?
Não bastasse o alinhamento de planetas, ainda teve eclipse. Com direito a anel de fogo. Que só os pinguins da Antártida conseguiram ver, mas deve ter tido algum efeito por aqui. Troco mensagens com uma amiga, que me conta que está completamente eclipsada. Por estranho que pareça, entendo o que ela quer dizer. Talvez eu seja uma lunática.
Depois do eclipse, sinto que minhas moléculas foram reorganizadas. Tive sonhos reveladores, minha mente fez cliques improváveis, cheguei a conclusões que agora me parecem óbvias, mas que por algum motivo eu não conseguia enxergar. Reorganizei meus arquivos no computador, fiz backups, mas parece que o espaço gigante que liberei foi na minha cabeça.
Às vezes precisamos ser sacudidos com força, ter nosso eixo deslocado, para que algumas peças dentro de nós possam se encaixar.
Viver em um pedaço do planeta que passa por variações extremas de clima no decorrer do ano está sendo um excelente aprendizado de como nossos ritmos, nosso humor, até mesmo a cultura que desenvolvemos são ditados pela trajetória que essa imensa esfera rochosa faz no espaço, girando para perto ou para longe do Sol. É a trajetória contínua dos astros que nos coloca em movimento. Não temos escapatória.
Fugir da transformação é impossível. Ela está acontecendo o tempo inteiro, não apenas nos grandes eventos que tomam o noticiário e se candidatam a virar capítulos nos livros de História (que serão solenemente ignorados pela próxima geração de jovens). A transformação às vezes é microscópica: pode estar em um único fio de cabelo mudando de cor, em um dentinho nascendo, em um pensamento que já não passa pelo mesmo lugar.
Depois do silêncio do inverno, começo a notar o som de pássaros que há meses eu não ouvia. Vejo folhinhas verdes começarem a brotar nos arbustos secos, ainda que há poucos dias estivesse tudo coberto pela neve. A última Lua cheia não mexeu só com as cabecinhas humanas. Há algo maior despertando nos últimos tempos. E parece ter pressa: tudo está acelerando, a roda gira mais depressa. Reparou? A culpa é de Áries e seu fogo no cu.
Olho para a janela e vejo a Lua brilhar gigante no horizonte. Preciso me contentar com a fotografia mental, já que as tiradas com o celular ficam uma verdadeira bosta. É sempre muito frustrante ver que o que ficou registrado é sempre um pontinho meio borrado, minúsculo em comparação ao enorme pão de queijo luminoso que meus olhos nus conseguem visualizar.
Minha teoria é que a Lua nos faz de bobos. A câmera até consegue registrar o tamanho real com que ela se apresenta no céu. Nós é que acreditamos que ela parece maior do que realmente é, graças à influência que ela exerce sobre nós. Não seria o primeiro caso em que nossa percepção exagera algo que nos afeta.
“Você está pronta para novos problemas”, diz meu app astrológico em uma tentativa de me motivar. Enquanto tento entender o que o trânsito de Urano em oposição a Saturno tem a ver com isso, concluo que esta não deixa de ser uma forma de olhar para o céu.
Tentar buscar nas estrelas algum conforto ou sinais de que o caos em algum momento vai dar trégua não pode ser pior do que olhar para o céu esperando apenas pelo horror das bombas. Que Saturno nos ajude.
Adorei ser entrevistada pela autora Lis Vilas Boas para o projeto Filhas de Úrsula, onde contei um pouco da minha relação com a ficção científica e da minha visão sobre esse gênero literário. Você pode ler na íntegra aqui.
Venha para o evento: “Narrativas negras na ficção especulativa”
Estou aproveitando a plataforma do meu Clube de Leitura para, além de ler em boa companhia, promover papos sobre literatura que acho relevantes.
Depois do maravilhoso papo com a Carol Chiovatto sobre mulheres na literatura fantástica (foi uma verdadeira aula!), chegou a hora de conversarmos sobre a influência do afrofuturismo na literatura, usando como ponto de partida a leitura de Nova, romance de Samuel Delany, autor que apresentei na última edição.
Para isso, convidei a incrível Anne Quiangala para contribuir com sua visão sobre o tema: além de idealizadora do site Preta, Nerd & Burning Hell, ela é mestre em literatura pela UnB, é doutora em estudos do horror de autoria feminina e negra, e atualmente pesquisa a representação literária de grupos minorizados na ficção especulativa.
Precisa ler o livro antes de participar? Não!
Você pode vir para aprender mais sobre afrofuturismo, saber mais sobre a obra de Delany e participar de um papo bem enriquecedor sobre literatura.
Mas se quiser ler antes, dá tempo também! Só não deixe de participar, vai saber em qual próximo alinhamento de astros vou oferecer outro papo legal assim.
Informações
📅 21 de março, sábado
⏰ 14h (horário do Brasil)
📍Via Zoom (participe de qualquer lugar do planeta)
O encontro ficará gravado e contará com certificado de participação. As vagas são limitadas.
⚠️ Inscrições abertas até o dia 20 de março!
Se você me apoia: você encontra no final deste e-mail um cupom especial de desconto para participar do evento. Quero muito te ver lá, hein?
Qualquer dúvida, me escreva: escreva@alinevalek.com.br







