Não tem momento em que eu me sinta menos brasileira do que em época de Copa do Mundo. Observo amigos e conhecidos empolgados para acompanhar os jogos e torcer pelo Brasil, decorando a casa e se vestindo com as cores da bandeira, e sinto um deslocamento alienígena. Se digo que não torço para o Brasil, recebo olhares tortos, incrédulos. Como ousa? Traidora da pátria!
Já contei que patriotismo não me desce bem. Em geral, multidões uniformizadas nunca deram em boa coisa. Especialmente quando começam a gritar “meu país é melhor que o seu”. Fujo.
Além disso, não vou com a cara da Seleção1. Não consigo comprar esse endeusamento que fazem dos jogadores, quase como se fossem cavaleiros consagrados a atravessar terras bárbaras em busca do que é nosso por direito, o nosso Santo Graal: o Hexa. Por que precisamos tanto do Hexa, e o que vamos fazer com ele depois que o conseguirmos, não faço ideia. Talvez apenas desejar o que vem depois, em um ciclo infinito de prefixos numéricos gregos.
Ainda assim, fiz um esforço para acompanhar os jogos e as conversas em torno deles, movida pela pura curiosidade antropológica de entender por que isso importa tanto, o que leva esse espírito de Copa a contagiar a quase totalidade da população brasileira. Será possível aprender a torcer? Ou esse é um músculo que atrofiou em mim?
O que descobri é que não é necessário acreditar na Seleção para ser um torcedor. Parece ser possível comemorar os gols do Brasil ao mesmo tempo que se gonga os jogadores brasileiros. É mesmo um evento bem democrático, talvez por isso envolva tanta gente. Pode participar mesmo quem não acompanha futebol, mesmo quem não está metido com aposta, mesmo quem odeia o Neymar.
Percebo, então, que torcer tem bem pouco a ver com sentimentos patrióticos, com o orgulho pela nação.
O Brasil é eliminado e o brasileiro continua lá, torcendo. Nem que seja contra alguém. O que muitas vezes é mais satisfatório do que torcer a favor. A alegria de ver o outro se foder é mesmo um sentimento primitivo, universal.
O que o brasileiro não consegue é ficar indiferente.
Se não tem mais seleção brasileira para torcer, não tem problema. O brasileiro troca a camisa, abre o armário e escolhe outra. A torcida brasileira está passando por um momento não-monogâmico. Mas calma, há critérios.
É preciso escolher sempre o país mais oprimido. Não se torce para europeu, país colonizador, imperialista, ou com comida mal temperada. Em primeiro lugar, sempre torcer para os latino-americanos. Exceto se for argentino, que se considera muito europeu. Puxa, mas tem aquele jogador abusador de mulher. Mas aquele país é mais racista. Ah, mas aquele outro roubou o Oscar de melhor filme estrangeiro de nós! Puxamos ressentimentos antigos, picuinhas pessoais, evocamos guerras de séculos passados, esperamos que a vitória em campo vingue, ainda que simbolicamente, injustiças históricas.
A cobertura da Copa nas redes fica bem parecida com a experiência de acompanhar BBB ou novela. A busca pelo vilão, pelo herói, pelo arco redentor, pela desgraça da loira rica malvada. Quem vamos eliminar? Quem vamos consagrar? Quem ganhou mais seguidores no Instagram? A internet é mesmo uma terra de façanhas. Eu não imaginava que seria possível tornar o futebol algo ainda mais chato de assistir.
O que está em jogo é mais do que futebol, é a luta do bem contra o mal. Como se o resultado do placar ajudasse a equilibrar a desigualdade social, a encerrar as guerras, a libertar os povos explorados, a triunfar contra o fascismo.
O que me deixa confusa é a torcida decolonial escolher como arena de disputa dos grandes conflitos mundiais um torneio sediado em um país imperialista enquanto ele bombardeia outros países, organizado por uma federação que deu um prêmio da paz para o Trump. Fascinante.
A lógica de torcer é algo que me escapa. Mas torcer não tem mesmo nada a ver com lógica.
O brasileiro leva muito a sério qualquer competição em que o Brasil tenha alguma chance de ganhar. Não importa se é no futebol, nas Olimpíadas, no tênis, no Oscar, em prêmio literário, em campeonato de robótica. Se um brasileiro ganha, comemoramos como se a vitória fosse nossa. É o nosso troféu. Somos penta. Ganhamos. A vitória nos transforma em primeira pessoa do plural.
Acho bonito, mas difícil me identificar com esse sentimento. Talvez por isso eu não saiba torcer. Posso admirar as pessoas que alcançaram aquela conquista, mas dificilmente vou ver como “minha”. Não fui eu que treinei, não fui eu que suei a camisa, que ouvi esculacho, que ralei pra conseguir, que entrei em campo, que arrisquei minha carreira. Como posso me apropriar desse troféu se tudo o que fiz foi assistir pela TV?
Foi uma amiga que me ajudou a entender: “ué, amiga, você nunca ganhou nota apenas por segurar a cartolina no dia de apresentar o trabalho?”. Rio sem graça, pensando que aí está uma grave lacuna na minha formação: eu realmente fazia o trabalho para merecer a nota.
Porém, nunca é tarde para aprender. Torcer ensina que às vezes sua parte do trabalho vai ser segurar a cartolina e, ainda assim, você vai ter permissão para se sentir parte da vitória. Deve ser isso trabalho em equipe.
Por algum motivo, acreditamos que o Brasil é o protagonista da Copa, mesmo quando ele não está em campo. Alemanha perdeu do Paraguai? Foi graças ao Brasil, que amaldiçoou a seleção alemã pelo 7x1 que meteu na gente (e nem fomos especiais, os únicos a sofrer essa derrota!).
Usamos as redes para discutir qual será a próxima seleção a ter a honra de contar com a nossa torcida, por mais que o restante do mundo ache biruta esse negócio de investir tanta energia para torcer e bater boca com desconhecidos na internet por conta de um país que nem é o seu.
Temos o talento de fazer ser sobre nós todo e qualquer jogo, afinal a Copa é um grande torneio espiritual e neste quesito poucos podem superar o Brasil.
O campo está cheio de fantasmas, entidades, energias, em um mata-mata de quem tem mais fé. Se uma seleção de que gostamos avança, se uma rival é eliminada: pronto; foram os nossos santos que ajudaram, foi a nossa mandinga a responsável. Se um gol sai quando não olhamos para a TV, esperamos que não entrar mais na sala traga outro. Alguns oram, outros fazem promessas, outros acreditam receber por sonhos sinais de quem estará na final. Todo mundo se apega a algum ritual, por mais ilógico que seja.
Todas essas narrativas e superstições são a nossa precária tentativa de dar algum sentido para o completo acaso. Não temos o menor controle sobre o que acontece em um jogo, mas torcer nos dá a ilusão de que podemos mudar um placar à distância, por mais improvável que seja. Torcer é um ato de fé.
Mesmo com a seleção brasileira entrando na Copa totalmente desacreditada e envolta em controvérsias, a cada fase que ela vencia, eu conseguia sentir um grande “será?” ganhando força no ar. Será que apesar de tudo seremos campeões? Será que teremos esse motivo para sorrir? Então a realidade se impõe e o Brasil é eliminado. Choramos, xingamos e nos emputecemos, na primeira pessoa do plural, como se fosse uma surpresa, como se fosse uma fatalidade que por pouco não foi evitada.
O brasileiro, no fundo, só quer muito acreditar. E por isso tão vulnerável a bets, a todo tipo de picareta.
Agora entendo melhor o apelo que há em torcer. Não é pela Seleção. Não é por um senso de patriotismo. Não é só pela soberba e arrogância de afirmar que somos superiores aos outros países. Não é sequer pelo futebol. É para exercitar o músculo da esperança, é para ter algo no qual botar fé. Por que não no Brasil?
“O créu é o som do nosso choro.”
— Craque Daniel
A melhor parte de acompanhar a Copa foram os episódios de Falha de Cobertura.
Nem acredito que escrevi 1400 palavras sobre futebol. Todos nós cometemos erros. Espero que me perdoe.
Se quiser, me escreve de volta e me conta se você torceu. Torceu pra quem? Torceu pelo quê?
Um beijo,
A seleção brasileira masculina de futebol, é bom frisar. Mas achei interessante observar nas transmissões daqui da Alemanha os narradores se referirem a ela simplesmente como “Seleção”, assim, em português mesmo, ainda que sejam incapazes de pronunciar o som do til.








Torcer é fazer parte da festa. A gente torce, em geral, porque a gente sempre torceu.Torcer pra time de futebol é igual vacina contra sarampo, você não lembra muito da sua vida antes dela. A gente aprendeu a torcer porque ir pro estádio era o único rolê de domingo que meu pai topava fazer com as crianças, e ainda pagava a pipoca. Ao longo dos anos vão se juntando memórias incríveis que são entrelaçadas com a torcida. E não são só boas memórias, mas também as doídas. Aquele gol de Marcelinho Carioca em cima do Vasco, no mundial de 2000. Bebeto embalando o próprio filho imaginário na comemoração de um gol, em 1994. Aquele litrão de Skol quase quente que a gente tomou na força do ódio no quiosque da porta da UEFS depois do 7x1 só para não ter que voltar para casa logo e tentar digerir tamanho engasgo isolados em nossas quitinetes solitárias. A gente continua torcendo porque valeu muito a pena ter torcido até aqui. Seja pelas lágrimas ou pelo grito rouco de gol. Valeu a pena, não pelo futebol em si, não porque esse time chinfrim mereça, mas porque a gente merece sempre colecionar boas histórias.
Eu, que também nunca torci na Copa e também tenho dificuldade com esse coletivo que se apropria do trabalho alheio: “nós ganhamos, nós perdemos”, me sinto contemplado por esse texto. Nós, do brasil, escrevemos mesmo muito bem!