Afetos digitais

Soube que a professora de yoga que eu acompanhava pelo Youtube faleceu. Já fazia uns meses, mas quando vi o vídeo do marido falando sobre o legado que ela deixou, fiquei em choque. Não fez sentido algum. Não que alguma morte faça. Nunca faz. É o que dói.

Fiquei me questionando se eu tinha direito a esta dor. Eu não a conhecia de verdade, ela sequer sabia da minha existência. Ainda assim, foi com ela que comecei a praticar yoga. Ela me ensinou a confiar no meu próprio corpo. Eu ficava com raiva quando ela forçava meus limites um pouco mais. Eu chorava quando ela lia palavras bonitas durante a savasana. E agora ela não está mais. Quer dizer, os vídeos dela estão. Sua voz calma dizendo para eu soltar os ombros e relaxar o maxilar continuam aqui. 

Essa relação aconteceu apenas por meio de uma tela. Ainda assim, a dor: perdi uma professora.


Viver realidades virtuais não é mais coisa de ficção que nos leva a imaginar as doideiras do futuro. Nossa vida está cada vez mais atravessada pelo mundo digital, processo acelerado pela pandemia. O que tinha tudo para ser episódio de Black Mirror é só mais um dia normal para os que tentam sobreviver a 2021.

Trabalhamos em espaços digitais, levamos nossa presença virtual para encontros e eventos, compramos online, até TV assistimos pela internet.

O digital está ficando mais real.

Os NFT’s são um exemplo disso. São tokens digitais capazes de conferir autenticidade e valor a obras digitais compradas com dinheiro virtual. Maluquice, né? Não me arrisco a explicar demais, porque ainda estou em processo de entender, então recomendo este texto que saiu na Revista Gama. Posso não entender, ou me parecer uma ideia absurda, mas não posso ignorar que existe e que está gerando valor real.

O virtual está ganhando peso, substância. Na economia, na produção cultural, nas nossas relações. Não que o virtual vá substituir o que é do mundo material; está mais para se tornar uma extensão. Novas tecnologias ou experiências tendem bem mais a coexistir com as antigas do que extingui-las. 

O livro digital não matou o livro impresso, como tanto alardeavam (mais provável que o que mate seja mesmo o governo Bolsonaro). Falar com os amigos via Zoom não vai matar as reais amizades (pelo contrário; enquanto um vírus mortal circula pelo ar, o que pode matar são encontros para ficar respirando juntos).

“Mas eu prefiro o toque, o cheiro, sabe?”, alguém pode dizer, tanto em relação a livros de papel quanto a encontrar pessoas cara a cara. Óbvio que tem um sabor diferente. Mas, a essa altura, já não deveria soar ultrapassado desprezar as interações via meios digitais, como se valessem menos que as presenciais?

O que fazemos online nos afeta, tem efeitos reais.

A premissa da série Upload passa por essa questão. No universo da história, quando alguém morre, pode fazer upload de sua consciência para dentro de uma realidade virtual. 

A série é engraçada, apesar de ser uma ideia de pós-vida bem horrorosa: depois de morrer, a pessoa passa a viver dentro de um grande The Sims, onde os vivos continuam a encher o saco, e, para fazer melhorias em seu avatar ou ter experiências de vida (tipo comer ou espirrar), a pessoa precisa pagar. Não muito diferente da experiência de estar vivo hoje.

A protagonista é programadora na empresa que hospeda a consciência dos mortos em um condomínio de luxo virtual. Ela acaba se interessando e se apaixonando por um dos residentes: ou seja, a réplica virtual de um falecido. 

Flertar com um morto, por mim tudo bem. O que me incomodou foi ver uma mulher lindíssima interessada logo por um homi bem padrãozinho sem graça nenhuma; fora isso, a relação que eles cultivam por meio de um ambiente digital passa a ter contornos bem reais. Afinal, ela está lidando com a consciência de uma pessoa, o conjunto de memórias e percepções que fazem com que ele seja ele.

A série extrapola uma questão que já se faz muito presente nas nossas vidas. Não é por acontecerem em ambientes digitais que os afetos são menos reais.

Cada interação, um like singelo, um comentário ou uma troca de mensagens fazem parte da construção de uma relação — que às vezes, mesmo sem o outro saber, podem nos salvar de formas bem reais.


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Continuando aqui o papo da newsletter anterior, um artigo da Juliana Cunha sobre BBB me fez voltar a pensar na sincronia e porque estamos tão carentes dela:

O brasileiro estava desesperado por uma simultaneidade que não estivesse vinculada à desgraça. Em seu livro Comunidades imaginadas, o historiador Benedict Anderson argumenta que o sentimento de pertencimento a um grupo nacional estaria amplamente baseado na ideia de um tempo homogêneo e de acontecimentos compartilhados. 

(…)

Talvez por isso boa parte das discussões que acompanhei a respeito do Big Brother tivessem em sua base a vontade de reestabelecer uma gramática comum: um conjunto mínimo de parâmetros para enxergar e classificar a realidade. Esse esforço canalizado a um programa de TV pode indicar uma vontade mais profunda de lamber as feridas, de refundar um terreno básico a ser compartilhado. 

Juliana Cunha

Comecei a entender a nova onda de lives do tipo “trabalhe comigo”. Faz sentido acompanhar uma pessoa concentrada em silêncio por 20 minutos se você quer uma ajuda para ficar concentrada em silêncio por 20 minutos.

A busca por alguma sincronia numa época de desencontros, ou de encontros em espaços digitais, marca a necessidade de habitar o mesmo tempo, compartilhar uma mesma experiência juntos. Inclusive para diminuir a sensação de solidão dos momentos de estudo e trabalho.

Geralmente a pessoa que transmite a live faz algumas pausas para conversar e interagir com quem está assistindo, mas o que acho interessante mesmo é observar a pessoa trabalhando. No que está trabalhando, onde está trabalhando. 

Acho fascinante a possibilidade de entrar no ambiente de trabalho das pessoas, conhecer como é sua mesa, as ferramentas que usa, acompanhar o processo de alguém, por alguns minutos que seja.

Cada curioso com o seu BBB.


Para quem gosta de trabalhar em sincronia com outras pessoas, esse timer é ótimo para focar em sessões de trabalho.

“Quando alguém te diz algo racista, isso te atinge bem no fundo do seu ser. Cada vez que você enfrenta uma situação racista, isso literalmente tira anos da sua vida.”

Kontaktbeschränkungen: uma das mais de 1000 palavras alemãs criadas para expressar situações típicas da pandemia.

Newsletter é punk. Tanto que Patti Smith também tem uma!

Ele sabia que, à medida que nega o que existe, a pessoa é possuída pelo que não existe, pelas compulsões, pelas fantasias, pelos terrores que se juntam para preencher o vazio. Mas o vazio estava lá.

— Ursula K. Le Guin, no romance A curva do sonho


Bati um papo sobre meu livro As águas-vivas não sabem de si com dois biólogos que mergulham, olha que feat! A conversa está no podcast Jantando na Taverna, em duas partes: uma sem spoilers, para quem ainda não leu o livro, e outra para quem quiser mergulhar em discussões mais profundas sobre a história. Nas duas, muitas conversas sobre criaturas marinhas.

Também conversei com a Anne Quiangala,no canal da Preta Nerd, sobre o livro Cidades afundam em dias normais, que é a leitura de abril do clube #PretaRead. Fica a dica para quem quiser ler o livro com companhia.

Para fechar essa sequência de presenças virtuais & conversas reais, convido você a ouvir o mais recente episódio de Valek Conversa, no meu podcast Bobagens Imperdíveis:

Tive uma conversa delícia com a Renata Corrêa, escritora e roteirista, que contou suas histórias de vida, falou sobre escrever para TV, síndrome da impostora, séries de putaria e sobre escrever a várias mãos. Para quem também curte espiar o processo de outras pessoas, esse episódio tá só o ouro.

Se você chegou a essa edição navegando pelos labirintos da internet, você pode assinar aqui e receber as próximas edições desta newsletter no conforto do seu email.

Até nosso próximo encontro neste espaço digital!

Um beijo,

Aline.