Deixei uma revelação no final.
No livro Como se revoltar?, o historiador francês Patrick Boucheron usa a Idade Média como exemplo para mostrar as condições que tornaram revoluções possíveis, além de desfazer alguns mitos de que esse período foi uma época de total obediência e submissão.
Volto ao livro em busca de uma resposta, mas encontro um lembrete. O autor não fala apenas da Idade Média, fala de hoje:
“Mas a história pode fornecer um kit de sobrevivência e outras defesas contra o fatalismo: seja qual for a situação, não existe exemplo histórico em que o pior dure eternamente. A situação pode sempre se agravar, ainda estamos vivendo esse momento, e o pior talvez ainda esteja por vir, mas no final sempre acontece algo que não necessariamente prevíamos. É uma evidência, é uma banalidade que pode nos servir de tábua de salvação. Isso porque a história é incompreensível, mas reversível, porque ela não é uma fatalidade.”
— “Como se revoltar?”, Patrick Boucheron, tradução de Cecília Ciscato
Isso ressoou especialmente porque tenho ouvido muito que essa realidade bizarra que estamos criando é inevitável. Não tem mais volta. O avanço da IA. A precarização do trabalho. O declínio cognitivo. A radicalização dos mais jovens. O sequestro da internet. As pessoas ficando mais conservadoras. As mulheres mais magras. Os serviços piores. Os tempos mudaram, é preciso aceitar que nada vai voltar a ser como antes.
É cansativo viver e presenciar momentos históricos. Mas não são todos? Este foi o que nos coube. Um momento de revolução com menos guilhotina do que eu gostaria, claro. Mas ainda assim, um momento de revolução.
A angústia é principalmente de não ver onde isso vai dar, de não ver uma conclusão adiante. Os momentos históricos são mais reconfortantes se assistidos à distância de um livro de história. O tempo permite criar uma narrativa de causas e consequências, muito lógicas. Isso aconteceu por causa disso, que levou a isso.
Ao vivo não tem isso, não. Ao vivo, somos convocados a participar da história, a agir. Esse discurso de que não tem mais volta é perigoso quando quer dizer que só nos resta aceitar o que vier e nos adequar. Que é perda de tempo lutar contra. Mas não é possível que não tenha o que fazer.
O que pode ser feito?
Volto a Patrick Boucheron:
“(...) Entre obedecer cegamente e se revoltar violentamente, existe uma gama de atitudes possíveis: mau comportamento, omissão, artifícios. Fingir ou fugir. Não se deixar humilhar, não se deixar governar, inventar sua própria vida, opor de forma tenaz e livre seu modelo de existência. Permanecer aqui, obstinadamente, ocupar a praça ou, ao contrário, ir embora, partir rumo à aventura.”
— “Como se revoltar?”, Patrick Boucheron, tradução de Cecília Ciscato
Se a revolução já chegou, se não temos escapatória, cabe a cada um de nós decidir como vamos fazer parte dela.
O que as distopias ainda podem nos dizer sobre o nosso mundo?
Ainda faz sentido buscar a distopia na ficção quando estamos imersos em uma realidade distópica?
Convidei o querido Felipe Castilho para um papo sobre distopias, para já chegar com o pé na porta nesses últimos capítulos da temporada de Bobagens Imperdíveis.
Castilho é escritor, roteirista de quadrinhos e animações, tendo no currículo algumas histórias distópicas, como os livros da série Ordem Vermelha e seu novo lançamento, pela Editora Aleph, o romance A Besta.
Falamos muito da guerra às máquinas — na ficção e fora dela. Falamos de livros e filmes que pintam cenários horríveis e de como políticos e milionários tentam concretizar essas ideias no mundo real.
Apesar do tema, ouvir o Castilho me encheu de energia e inspiração. Me lembrou que fazer parte da resistência está mais ao meu alcance do que imagino. Espero que acenda faíscas por aí também:
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Para que serve a IA
Tenho pensado na IA não como uma tecnologia, mas como uma substância contaminante.
Nada me tira da cabeça que, para um empreendimento de investimentos nababescos como esse operar sem lucro por tanto tempo, na atual fase desse capitalismo selvagem, seu objetivo mais importante talvez não seja o lucro.
Um dos objetivos centrais da IA é contaminar.
Não falo somente do já sabido dano ambiental causado pela construção desenfreada de data centers. Vejo como ela contamina o discurso, nossa linguagem, como falamos, o que escrevemos, o que criamos, o que pensamos, como vemos o mundo, como olhamos para nós mesmas.
Você nem precisa ser adepto ou usar a IA para ser contaminado por ela.
Quantas vezes já não repensamos o que escrevemos com medo de pensarem que foi o robô que escreveu? Quantas vezes já não deixamos de achar graça em algo quando percebemos que foi feito com IA?
Por que mover tantos esforços para fazer essa tecnologia ser capaz de produzir coisas mais e mais realistas, a ponto de se tornarem indistinguíveis da realidade ou de algo feito por um humano, se não fosse movida pelo objetivo de enganar, de confundir, de plantar a desconfiança?
A IA está aí para nos fazer desconfiar uns dos outros, desconfiar de nós mesmos, da nossa própria capacidade de pensar ou fazer tarefas simples sem recorrer a ela.
A IA serve perfeitamente para corroer os vínculos humanos. Para nos isolar ainda mais.
Por que colaborar com alguém, se eu posso pedir à máquina para fazer? Para que contratar um aprendiz, se a máquina pode fazer esse trabalho? Para que trabalhar junto, para que perguntar a um amigo, para que ter um professor, para que ter um terapeuta, se a máquina está ali ao meu dispor?
Nunca foi uma ferramenta a nosso serviço. Ela serve a propósitos outros.
Leia o texto completo no blog.
Outras palavras
✍️ Este texto me representa demais: sou uma hater de IA
📉 Tá esfriando o hype. Pesquisa mostra que mais da metade dos americanos está preocupado, não mais entusiasmado, com a ascensão das IAs
💻 É ESSA a internet que quero e da qual sinto falta
📖 A Clara Averbuck, com quem aprendi um tanto sobre me revoltar, está lançando livro novo: Sim, nós estamos com raiva
📖 Também saiu a versão impressa do livro da Paula Gomes, Um Garimpeiro, um Padre, um Médium, um Detonador, Deise, um Guia Turístico e Eu, vencedor do Prêmio Valeker 2023
🎨 Como encarar um projeto longo sendo ansioso, impaciente e desmotivado: anotando todas essas dicas da samanta flôor
🎨 O Universo não é perfeito e simétrico: acho que essa edição do William Mur também conversa com o link acima
Chá-revelação
Agora é oficial: meu próximo livro tem nome e casa!
Será publicado pela Drops Editora, onde está sendo editado por uma das minhas autoras favoritas da vida, a Fal Vitiello de Azevedo. Vocês têm noção do que é trabalhar com quem vocês admiram?
Por enquanto, estamos trabalhando para um livro bem lindão nascer dessa parceria. Enquanto isso, fique aí criando expectativas!
Em breve, conto mais.
Um beijo,
A.V.








Em meus achismos, a IA não vai acabar. Pode (e vai) colapsar financeiramente, mas a tecnologia se transformará em outra coisa.
Claro, isso não quer dizer que será para melhor.
Criando expectativas pro seu livro novo, interessado nesse do Boucheron e escrevendo como forma de resistir. Assim vou levando!