Uma Palavra: vozes internas

É perigoso esse negócio de se encontrar. Mesmo à distância, as palavras alcançam. Altamente transmissíveis, encontram refúgio do lado de dentro, ficam incubadas operando transformações silenciosas no nosso falar, no nosso fazer, no nosso pensar.

Entendo quem foge e quem se fecha. Pessoa que se faz de durona, do tipo que não dobra nem quebra com influência de ninguém. Eu, influenciável? Sou dona de todas as minhas ideias, eu que pari, sei para onde vão! Vai achando que há pureza, que você não é um caleidoscópio vivo com fragmentos de ideias dos outros.

Vai ver venha daí o medo irracional dos conspiracionistas que acham que tudo é um grande plano para um comunista — ou um bilionário — invadir sua mente e transformar o DNA de seu pensamento. Eu já acho que o maior poder de nos mudar vem de outro lugar que não fantasiosas vacinas com chips invasores. Vem do que nos deixa sem defesa: afeto é o maior cavalo de Tróia que existe.

O assustador dessas trocas com as pessoas que passam pela minha vida, em conversas, com o trabalho que fazem e me inspiram, em relações complicadas que rendem assunto na terapia, é que não tenho controle sobre o que elas trazem que vai plantar a sementinha de uma transformação. Viro jacaré. Ou nuvem, ou jabuti. É sempre uma surpresa descobrir.

Vamos nos costurando uns aos outros assim, sem se dar conta. Quando vejo, já não sou mais a mesma. Não há anticorpo que me defenda dessa simbiose, que traz novas vozes para fazer morada dentro da minha cabeça. Um vozerio interno de inquilinos que eu mesma convidei para dentro. Mais do que os óculos, são as outras pessoas, dentro de suas perspectivas únicas e muitas vezes bizarras, é que me ajudam a enxergar melhor.

Manter a espinha ereta e o coração tranquilo, já diria um dos melhores conselhos da vida. E sempre que puder, não dê vacilo, continuou o outro. Vai ver é a postura que permite tornar minha substância permeável, liquefeita, e, virando água, poder misturar em mim um pedaço do outro.


Nossas cabeças são recipientes de revolução. Através delas fomos puxados para fora de nossas mães. Não são quadradas como telas que evoluem para tornar obsoletas as versões anteriores, mas redondas, como planetas, que giram e avançam no espaço.

— Trecho do livro “Bobagens Imperdíveis para atravessar o isolamento


Uma série que proporciona a experiência única de ouvir Liniker cantando Vanusa com Paulo Miklos na guitarra já pode ser considerada um acontecimento digno de atenção. Quando esse motivo se une a um roteiro sensível, uma fotografia capaz de transformar um monstro de arranha-céus em poesia visual e um elenco que nos conduz do riso ao choro, passando pelo quentinho no coração, aí se transforma em série que chega dá saudades quando acaba.

Manhãs de Setembro conta a história de Cassandra, interpretada lindamente por Liniker, uma mulher que divide seu tempo entre o trampo de entregadora, seus shows noturnos e seu affair com um garçom. 

Sua vida parece se encaminhar para alguma estabilidade — de mudança para seu tão sonhado apartamento — até que aparece à sua porta um garoto a chamando de pai. Filho que ela não sabia ter, acompanhado da mãe, um encontro casual de muito tempo atrás. Um eco de uma vida que ela deixou para trás, quando vivia sob o nome de Clóvis. Mas, de repente: um filho. 

O que fazer com isso? Como Cassandra vai lidar com a situação de aceitar (ou não) Gersinho em sua vida? As perguntas foram me levando para dentro dos personagens, de onde eu não queria sair. Personagens teimosos me deixam grudada à história.

A grande Elisa Lucinda empresta sua voz para Vanusa, que é a própria voz da consciência habitando o interior de Cassandra. É a voz que a ajuda a navegar pelas escolhas que ela precisa fazer na difícil jornada de ter a liberdade de ser ela mesma. E Cassandra faz de tudo para se proteger, para não deixar que entrem e baguncem o que custou a ela para construir. Ergue muralhas. Afasta, expulsa. Quem disse que adianta?

Os personagens vão afetando os outros e se modificando no processo, líquidos. Às vezes basta um boné esquecido num canto do apartamento para despertar o gatilho de que algo dentro dela já não está no mesmo lugar. 

Essa história me falou muito de movimento. Especialmente aquele que se faz em direção às outras pessoas — como oferecer abrigo em noite chuvosa ou dar aquela forçada no portunhol para conseguir a simpatia de alguém.

O vai e vem da motoqueira, fazendo trocas circularem pela cidade, são mais uma forma de dizer que Cassandra está em trânsito. Entre uma pessoa e outra, entre ela e uma nova versão de si mesma, abrindo espaço para ter a vida povoada de vozes.

Avaliação final: 6 de copas sem dúvidas


lance Uma Palavra na água e deixe a correnteza levar:

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Saiu meu curso na Domestika!

Muito feliz de poder compartilhar meus métodos de trabalho nesse curso que produzi com muito capricho junto com a maravilhosa equipe da Domestika!

Será um curso focado em entender o processo criativo (com métodos que podem ser aplicados em qualquer tipo de projeto), desenvolver uma rotina de escrita e apresentar possibilidades de publicação independente — indicado para quem quer começar a escrever e (o mais importante) continuar a escrever.

E claro que eu não perderia a oportunidade de trabalhar com newsletters, esse meio que é meu queridinho. O projeto final do curso é desenvolver uma newsletter (!!) e no caminho desenvolver a própria voz e uma rotina de escrita.

A maravilha de fazer o curso na Domestika é contar com a qualidade de produção e com o custo benefício muito bom da plataforma, além de ser totalmente online: você pode fazer no seu ritmo, quando quiser. O acesso às aulas é ilimitado.

Vamos trabalhar atividades práticas (fazendo um projeto do início ao fim!), temos um fórum para tirar dúvidas e compartilhar exercícios, materiais e leituras complementares para baixar, além de um certificado de conclusão.

E se você se inscreveu, não deixe de fazer os exercícios, compartilhar as atividades e dúvidas no fórum! Quero ver essa produção de texto frenética por lá. 

Bora escrever?


Olhos da mente

Já parou para pensar que cada pessoa, dentro de seus miolos, roda com um sistema operacional diferente? 

Tem quem tenha vozes internas, tem quem tenha departamentos mentais específicos para cada idioma que fala, tem quem crie imagens mentais, tem quem edite clipes dentro da própria cabeça enquanto devaneia olhando pela janela, tem quem não visualize imagem nenhuma.

Essa condição, aliás, é conhecida como afantasia

O animador que criou a sereia Ariel, por exemplo, é uma dessas pessoas incapazes de evocar imagens com os olhos da mente — o que mostra que criatividade e habilidades artísticas não são a mesma coisa que imaginação visual.

Este vídeo explica o pensamento do ponto de vista de alguém com afantasia:

Chega a ser espantoso ainda conseguirmos fazer coisas e construir conhecimento e viver juntos, mesmo que em arremedos de entendimento, considerando que sequer costuramos sentido usando a mesma malha do pensamento! Óbvio que com essa zona cognitiva que é o ser humano desentendimento e ruído vão ser mato.

Não entender faz parte. Desentendimento é o custo de colher a beleza de cabeças diferentes produzindo pensamento juntas.


O que você visualiza quando fecha seus olhos e eu te peço para pensar na aparência que têm as vozes que moram na sua cabeça?

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Impermanência

Temporada fica pra mim como um filme muito sincero sobre as coisas e situações que, como o título indica, são temporárias. 

Impermanentes como o próprio ato de movimentar-se, de reinventar-se, que tem o seu fim quando é tempo de se assentar. Impermanentes como as pessoas que entram e saem de nossas vidas.

Elas são correnteza: passam por nossas vidas trazendo movimento, podem correr ao nosso lado por boa parte do caminho, mas cada uma tem seu próprio percurso. Podemos no máximo acompanhá-las por um trecho da jornada.

— Mais sobre o filme Temporada no meu texto Água parada e outras metáforas de impermanência.


Deixa eu bagunçar você?

Às terças e sextas, apareço na Twitch para trabalharmos juntos, trocar ideias, conversar sobre o que se passa na minha cabeça, mostrar o que tem me tocado. A gente se faz companhia nesse isolamento que ainda vai custar a acabar.

Siga lá para receber aviso de quando eu entrar ao vivo!

Por todo espacinho que você me deixa entrar, agradeço. E se você aprecia as palavras que misturo em você, por escrito ou com a voz, você pode me apoiar mensalmente e vir para o clube valeker ou deixar o valor de um café.

Lembrando a você que leu essas palavras soltas pela internet, que assinar para recebê-las no aconchego de seu e-mail é muito mais gostoso.

Acho difícil falar sobre pensamentos, de colocar esse bicho escorregadio dentro de um recipiente de palavras, mas sempre acho que vale a pena tentar. Por isso, volto.

Até a próxima edição!

Um beijo,

Aline.